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O horror confortável do Holocausto que isente a Europa da culpa

O historiador Chris Whitehead refere-se à memória e representação pública do Holocausto como “horror confortável”. A expressão pode ser chocante mais é adequada. É o estatuto de excepcionalidade que permite tornar o Holocausto confortável para todos. As pessoas sabem como se relacionar com o Holocausto.Ele acaba por ser usado como foco de todo o sofrimento e culpa, evitando novos temas (presentes ou passados) que, para um europeu que não seja alemão, podem ser mais embaraçantes. O debate europeu sobre o cosmopolitismo, multicuralismo e nacionalismo é estéril se ignorar a história colonial da Europa. Mesmo que seja incrivelmente confortável não o fazermos e deixarmos todo o fardo da culpa em cima dos ombros alemães. O sentimento de culpa alemã teve a enorme vantagem de os prevenir contra as suas pulsões xenófobas. Teve a enorme desvantagem de dar aos restantes europeus um falso sentimento de superioridade moral, que não os defendeu dos seus próprios fantasmas. Como temos visto

Li no “Público”, esta semana, uma surpreendente entrevista ao professor de museologia da Universidade de Newcastle, Chris Whitehead. O historiador, ligado ao projeto CoHERE, veio a Lisboa para participar numa conferência anual do Conselho Internacional de Museus e começou a sua comunicação exibindo uma selfie tirada por um visitante no campo de extermínio de Auschwitz. Assim, criado o choque, poderia falar da relação incómoda do presente com o passado.

Não é apenas para nos divertirmos que vamos a museus. Nem sequer é apenas para ficar a saber coisas sobre o passado. Os museus, como o ensino da história e toda a fixação de memória coletiva, ajudam a criar identidade. E se o fazem, têm funções de cidadania e não são neutros. Poucos países nos podem explicar isto melhor do que a Alemanha. Para a Alemanha, lidar com passado de forma por vezes quase masoquista tornou-se um elemento central da sua identidade atual. Berlim tem quase mais memoriais do que monumentos. É, deste ponto de vista, injusto muito o que se diz e escreve sobre os alemães. Foram dos poucos a lidar de forma corajosa com os seus crimes. Muitos acreditam que foi porque foram longe demais. De facto, na história recente, não se encontram crimes com o grau de frieza quase industrial do genocídio levado a cabo pelos alemães. Mas parece-me demasiado reconfortante acreditar que foram os primeiros a ir longe demais. Implica conhecer mal o papel das principais nações europeias no mundo.

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