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Para o mal e para o bem, o PCP já não é o que era

O PCP passou de 140 mil militantes em 1996 (tenho ideia de serem quase 200 mil nos anos 80) para 54 mil neste momento. E o facto de mais de metade não pagar quotas é um barómetro de menor militância. Em 1999 os sindicatos filiados na CGTP tinham 763 mil sindicalizados, agora terão 550 mil, segundo a central sindical. Um estudo do Banco de Portugal diz que, entre 1980 e 2010, a percentagem de trabalhadores sindicalizados passou de 59% para 11%. Não podemos analisar um partido com 54 mil militantes e que influencia uma central sindical que representa sobretudo os trabalhadores do sector público com as mesmas premissas que se usavam para falar de um partido onde militavam quase 2% dos portugueses e que era capaz de parar a economia. Mas ao mesmo tempo que pedia influência social o PCP reverteu, desde o inicio deste século, a queda eleitoral que tinha sofrido entre 85 e 95. A convergência entre influência social e influência eleitoral e institucional teve efeitos. A disponibilidade para sustentar um governo do PS e a sua maior dependência em relação aos ciclos eleitorais, por exemplo. Porque tudo mudou à sua volta, o atual PCP é muito diferente do PCP que Álvaro Cunhal liderou. A sua arte foi mudar com a maré passando a ideia que era uma rocha

O PCP é visto, por jornalistas e comentadores, como uma curiosidade antropológica. E isso nota-se nas ideias feitas e mitos que colonizam o discurso dominante sobre este partido. Especialmente evidentes nas coberturas noticiosas do último congresso. Aos comunistas mais incautos a coisa parecerá elogiosa, mas trata-se de condescendência, tão mais aparentemente simpática quando mais à direita está o observador. E esta condescendência impede uma análise séria de um partido que representa quase um décimo dos eleitores e do qual depende o governo do país.

Todos os partidos são diferentes uns dos outros e todos têm semelhanças. Nem o PCP é um partido estranho à democracia que ajudou a fundar, nem é um partido moralmente superior e sem os pecados da ambição, do carreirismo ou do tacticismo que podemos encontrar em todas as organizações humanas. Uma imagem é, aliás, espelho da outra porque ambas tratam os comunistas como um elemento excêntrico ao sistema democrático. Uma das ideias instaladas é que o PCP é um partido de confiança porque trabalha para um futuro longínquo. Os amanhãs que cantam libertam-no de preocupações táticas. Será uma espécie de Igreja laica onde habitam pessoas a quem foi retirado o senso comum, não se apercebendo dos tempos de derrota que vivem. Como se os militantes e dirigentes do PCP não tivessem olhos na cara e não fossem capazes de compreender que os ventos da história não lhes estão de feição.

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