Siga-nos

Perfil

Expresso

Porque está o PCP a correr maiores riscos na geringonça 

O acordo da geringonça foi mais natural para o PCP do que para o BE. Não há, nos comunistas, uma cultura de contrapoder. Estou mesmo convencido que se não houvesse Bloco o PCP teria aceite entrar para o governo. O problema do PCP, na geringonça, é sempre o Bloco. Assim como o problema do Bloco é o PCP. Disto não concluo o que o PCP dá mais garantias de estabilidade à geringonça do que o Bloco de Esquerda. Pelo contrário. E a razão não é uma maior dificuldade ideológica no entendimento. O PCP tem mais dificuldade do que o Bloco em surfar nas contradições da geringonça e chamar para si cada conquista. Não por pudor, mas pela menor maleabilidade táctica que a sua história e a sua dimensão orgânica lhe dão. Uma importante parcela da base social de apoio dos comunistas – reformados e funcionários públicos – tem sido a mais beneficiada por este governo e não é certo que o PCP esteja a capitalizar isso para si. Estou absolutamente convencido que, se não houver novidades da Europa, o PCP suportará a geringonça até ao fim da legislatura. Mas é o espírito conservador do PCP e uma avaliação da sua força relativa em relação ao PS e sobretudo em relação ao BE em todo este processo que determinará o seu comportamento futuro

Os jornalistas conhecem mal o PCP. E é normal que o conheçam mal. Um partido onde os conflitos internos são geralmente ocultados do exterior – apesar de uma leitura atenta do “Avante!” poder dar algumas pistas sobre a atual tensão entre direção e linha ultraortodoxa – torna-se difícil de conhecer. E como o conhecem mal tendem a repetir ideias feitas. No tempo em que o PCP significava um risco real para o poder as ideias feitas eram quase todas negativas. Quando o PCP passou a ser, pelo contrário, uma barragem segura para novidades antissistémicas, as ideias feitas passaram a ser positivas. Se dantes os comunistas não eram de confiança e estavam sempre prontos para tomar o poder, pela força se preciso fosse, hoje são a força que mais confiança merece, em que a palavra dada chega.

Por mim, continuo a achar que os partidos não devem ser analisados pela sua suposta natureza moral ou ética, mas pelo seu posicionamento político e ideológico, pela sua base social de apoio e, quanto muito, por considerações tácticas. E o PCP é como os restantes partidos: se houver risco de ganhar muito mais poder ou de perder o poder que tem tende a tornar-se mais imprevisível. Imaginar que os dirigentes do PCP conservam uma qualquer pureza que os outros não têm é uma forma de condescendência perante os comunistas.

Para continuar a ler o artigo, clique AQUI
(acesso gratuito: basta usar o código que está na capa da revista E do Expresso. pode usar a app do Expresso - iOS e android - para fotografar o código e o acesso será logo concedido)

  • O PCP resiste ou está condenado a definhar?

    Em cima do XX Congresso do PCP, que decorre em Almada entre esta sexta e domingo, fomos olhar para a evolução do partido para perceber se corre o risco de definhar, como outros partidos comunistas europeus, ou se os comunistas portugueses têm razões para continuar a acreditar nos amanhãs que cantam. A verdade é que com Jerónimo na liderança, o PCP conseguiu inverter o declínio eleitoral. Mas continua a perder militantes. E enfrenta agora desafios decisivos, como o apoio inédito a um governo socialista, a manutenção da sua influência social ou ainda recuperar a liderança da esquerda à esquerda do PS, perdida para o Bloco de Esquerda

  • Jerónimo estabelece oito prioridades para o país

    Houve duas grande interrupções para aplausos na intervenção inicial do secretário-geral do PCP no XX Congresso do partido: a alusão ao “momento de tristeza” vivido pela morte de Fidel Castro e a referência ao património do PCP. O congresso começou esta sexta-feira e prolonga-se até domingo, em Almada