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 Acabar com a chantagem

As forças mais progressistas não se devem limitar a aceitar a chantagem do mal menor. Até porque ela não faz mais do que adiar o mal maior. Devem negociar esse mal menor, mantendo uma postura totalmente autónoma da direita liberal e cobrando o seu voto com reais alterações programáticas. Da mesma forma que Clinton teve de ceder ao programa de Sanders para contar com o seu apoio, Fillon deverá ser obrigado a abandonar a sua agenda de liberalização para ter o voto da esquerda numa segunda volta. Ou então assumir as responsabilidades da sua própria derrota. A esquerda só sairá do buraco em que está quando deixar de ser um atrelado de agendas alheias. Foi essa secundarização ideológica, até quando governa, que levou os socialistas franceses à sua atual irrelevância. Não é por acaso que o PS português é dos poucos partidos socialistas ou social-democratas europeus que, estando a governar, cresce nas intenções de voto. Porque lidera o conjunto da esquerda com base num programa que corresponde à sua tradição política em vez de se contentar em ser uma cópia derrotada de tradições que lhe são alheias. E é por isso que fenómenos eleitorais contra a democracia não estão a crescer por aqui. Por uma vez, somos uma boa ilha na Europa

A escolha das primárias da direita francesa poderia ter sido pior. Podiam ter escolhido Sarkozy, que hoje tem um discurso quase igual ao de Le Pen, somando a ele algumas suspeitas de corrupção. Com uma abstenção da esquerda, que dificilmente conseguirá, com a atual oferta, ir a uma segunda volta, a vitória da líder da Frente Nacional seria bem mais fácil. Mas a escolha poderia ter sido muito melhor: se Juppé fosse o candidato a esquerda votaria nele sem qualquer dificuldade. É um homem da direita centrista tradicional e seria visto como uma concessão da para liderar uma frente democrata contra Marine Le Pen. Ao que tudo indica, não será esse o caminho escolhido.

Os partidos de esquerda podem ser responsabilizados por tudo (e tem quase todas as culpas pelo vazio político que deixou), não podem ser responsabilizados pela escolha de François Fillon. Se uma segunda volta nas presidenciais for entre Fillon e Le Pen, como tudo parece indicar, os eleitores de esquerda, que podem ser fundamentais para saber quem vence, não estarão entre uma tragédia e um mal menor. Terão de escolher entre um candidato com uma agenda neoliberal como a França nunca conheceu, alcunhado como uma Thatcher de calças, que se propõe partir a espinha aos sindicatos, aumentar o horário de trabalho, privatizar e desregular a economia, e uma candidata com um discurso xenófobo, uma agenda autoritária mas um piscar de olho a algumas preocupações sociais, que, não por acaso, vale mais de metade da intenção de votos dos operários.

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