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A esquerda e o regresso à Nação

Não é estranho que o voto da esquerda esteja a rumar para a direita nacionalista. A crise da esquerda é, apesar da sua tradição internacionalista, a crise do Estado-Nação. Porque toda a sua agenda reformista depende do Estado e do território em que o povo exerce a democracia. Da sua política fiscal redistributiva às leis laborais, dos serviços públicos à intervenção do Estado na economia. Não há social-democracia global. Nem europeia, como temos amargamente aprendido. O grande desafio da esquerda é voltar vincular a ideia de Nação a valores democráticos e direitos sociais, como, aliás, fez em todos os momentos em que foi historicamente determinante. É contrapor à visão étnica e xenófoba que a extrema-direita tem da Nação a ideia de soberania democrática e de cidadania. O que a esquerda tem de fazer não é tentar democratizar o globalismo ou aquilo em que se transformou o europeísmo. Isso é hoje uma impossibilidade prática. É redemocratizar o patriotismo. Se não o fizer, está condenada a ter de escolher entre neoliberais e fascistas, como provavelmente acontecerá na segunda volta das eleições presidenciais francesas

No texto que escrevi para a Revista E desta semana desenvolvi uma ideia: a de que o capitalismo global caminhava para uma fase autoritária. Que a globalização só seria compatível com a democracia se qualquer coisa como um governo global não fosse uma quimera. Sem ele, o Estado-Nação só pode sobreviver por duas vias: o protecionismo económico ou o autoritarismo político (não sendo um excludente do outro). E que Donald Trump, assim como outros fenómenos que tendem a crescer na Europa, corresponde a esta transformação. Ela não é inevitável, porque na História nada o é. Mas é esta a tendência.

Essa tendência corresponde a uma outra transformação do capitalismo. Ele não é apenas global, é também financeiro. As democracias liberais estão historicamente vinculadas às burguesias nacionais, ligadas ao capitalismo industrial produtivo e até aos imperialismos. Apesar de Marx ter dito que o capital não tinha pátria, a burguesia estava vinculada às suas Nações e Estados. Pelo contrário, o capitalismo financeiro desterritorializado não só dispensa o Estado (só precisou dele para o processo de desregulação e para a violenta contrarreforma a que assistimos nas últimas décadas) como dispensa qualquer tipo de democracia.

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