Siga-nos

Perfil

Expresso

Até ver, Manuel Heitor não é melhor do que Crato

É interessante comparar a miséria que se vive nos centros de investigação com o novo-riquismo bacoco com que o Web Summit foi recebido em Lisboa. Podemos discutir os números de magia do ministro da Ciência e Tecnologia para que o aumento da precariedade pareça o oposto, para que o empurrar de responsabilidades para os centros de investigação pareça corajoso e para que a redução dos valores de muitas bolsas pareça fartura. Mas há uma coisa que não podemos negar, porque se mede em dias e meses: os resultados do concurso para a atribuição das bolsas da FCT para doutoramentos e pós-doutoramentos, de que depende quase toda a investigação pública que se faz em Portugal, tinham de ser conhecidos em 90 dias úteis e só o serão sete meses depois das candidaturas entregues. Manuel Heitor garantiu que ia cumprir o calendário e não o cumpriu, por largo falhanço, logo no primeiro concurso. O que quer dizer que, até ver, não é mais competente do que Nuno Crato. Não me recordo de pior coisa para se dizer de um ministro

Se há áreas onde se sente uma vontade reformista (sim, as reformas não passam obrigatoriamente por destruir os serviços públicos) neste governo, como na educação, outras não só não mudaram quase nada do que herdaram como até pioraram o que de mal tinha sido feito. Um exemplo disso é o da Ciência e Tecnologia. Podia dizer-se que Manuel Heitor herdou bom trabalho feito e, por isso, só teve de continuar sem grandes alterações. Não é o caso. Manuel Heitor herdou o mesmo que Tiago Brandão: quatro anos de uma clamorosa incompetência de Nuno Crato. Mas se na educação se está a tentar corrigir o rasto de destruição deixado – este foi um dos primeiros inícios de ano letivo sem grandes polémicas ou problemas –, na Ciência e Tecnologia tudo parece estar na mesma.

Há muita coisa que se pode dizer sobre a herança deixada por Mariano Gago a Crato e Heitor. Até porque ela é contraditória. Se é verdade que foi ele que criou uma verdadeira política de ciência em Portugal, é impossível negar que o preço disso, até por causa da origem e natureza do financiamento, foi uma cultura de precariedade extrema. Nas contratações de pessoal já quase tudo parece ser possível: chegámos ao ponto de se utilizarem bolsas de gestão de ciência e tecnologia (BGCT) para colmatar a carência de funcionários nas instituições públicas, como contratar eletricistas e pessoal de secretariado (não é anedota, aconteceu e continua a acontecer) e técnicos para análise estatística, em violação do Estatuto do Bolseiro. Mas mesmo quem trabalha realmente na produção de conhecimento científico e tecnológico parece viver no mundo das empresas de trabalho temporário. Na investigação e na ciência paga-se para talvez um dia conseguir trabalhar, sempre sem qualquer perspetiva de futuro.

Para continuar a ler o artigo, clique AQUI
(acesso gratuito: basta usar o código que está na capa da revista E do Expresso. pode usar a app do Expresso - iOS e android - para fotografar o código e o acesso será logo concedido)