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A maçã feia de Colombo

Só em Portugal são desperdiçadas um milhão de toneladas de alimentos por ano (17% do que produzimos). A preferência dos distribuidores por legumes e frutos com tamanhos e formas normalizados, sem que isso tenha qualquer relação com a qualidade, é responsável por quase um terço do desperdício da nossa produção agrícola. A Cooperativa de consumo Fruta Feia é uma espécie de ovo (ou maçã) de Colombo. Os produtores vendem a um preço justo a fruta e os legumes que fogem dos padrões normalizados de tamanho e forma e que, por nenhuma razão racional, iria para o lixo. Os consumidores conseguem comprar fruta e legumes de excelente qualidade (muito melhor do que nas grandes superfícies) a um preço mais baixo. A Fruta Feia faz o que costuma faltar a estes projetos alternativos de comércio: em nome de uma boa causa garante vantagens para consumidores e produtores, não dependendo da sempre falível generosidade humana. É uma ilha de racionalidade económica num mercado onde distribuidor, consumidor e produtor não têm o mesmo poder e o primeiro consegue impor regras piores para todos os outros. E casa esta racionalidade com a proteção do ambiente e a defesa da economia local

Sempre desconfiei de ações políticas que se baseiem em opções de consumo – seja promoção ou boicote. Primeiro, porque importam a lógica do mercado para a democracia. Em vez de cidadão, sou consumidor. Em vez da lei regular a vida em sociedade, regula o mercado de que eu faço parte. Quanto mais poder aquisitivo, mais poder de pressão. É por isso um contrassenso que este tipo de ação política tenha tanta popularidade à esquerda. Depois, porque me sinto desconfortável com a construção de realidades alternativas. Não porque elas não sejam legitimas, mas porque correspondem, grande parte das vezes, a uma confissão de derrota. Em vez de mudar o mundo criamos um só para nós próprios e para os nossos amigos.

Mas nada disto implica que neguemos a nós próprios o direito e o dever de agirmos, enquanto produtores, consumidores, trabalhadores ou profissionais, de acordo com os princípios que defendemos. É sempre nesta tensão entre o particular e o geral, o global e o local, o pessoal e o institucional, a prática e a teoria, que se fez a política. Quem se limita a agir segundo as suas convicções na vida quotidiana e se demite dos grandes combates políticos é inconsequente, quem participa nos grandes combates políticos e os ignora nas escolhas quotidianas é incoerente. E todos nós temos um pouco das duas coisas.

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