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Trump e as nossas bolhas

Aconteceu na comunicação social o que está a acontecer, nas redes sociais, com a generalidade das pessoas: aqueles a quem a direita chama “liberal media” e a poderosa Fox News falaram para alguns para lhes dizer o que eles queriam ouvir, ouviu alguns para que eles lhe dissessem o que ela queria repetir. E neste processo não podiam, porque não queriam, compreender a realidade. Não há uma América real que votou Trump e outra, imaginada e elitista, que votou Clinton. Até porque a candidata democrata teve mais votos do que o republicano. Há várias, todas reais, que não se conhecem e não se querem conhecer. Num mundo onde as pessoas procuram amigos e amantes compatíveis por meios tecnológicos, fazemos o mesmo com a democracia. Deixámos de lidar com a incompatibilidade e a viver em bolhas sociais e políticas. A vista, parecendo alcançar mais, ficou mais curta. E sem o contacto com a diferença a democracia torna-se pouco operativa, resumindo-se a um confronto distante entre culturas e modos de vida. Sem comunidade, somos estrangeiros uns para os outros. Quando estas realidades se encontram, numa eleição, espantam-se com a sua própria ignorância

Os jornalistas tendem a sobrevalorizar o seu papel nos fenómenos políticos. Nisso, não são diferentes de todas as classes, que gostam de sublinhar a sua própria relevância. Há hoje, no entanto, algum saber consolidado que os desmente. Sendo importante o que é veiculado na comunicação social, a experiência pessoal dos indivíduos é muitíssimo mais determinante para as suas posições políticas do que aquilo que veem nos media. Se todas as televisões, jornais e rádios venderem diariamente a um desempregado que ele vive num país perfeito nem por isso ele deixará de ter o quotidiano de um desempregado. E como nas suas redes sociais (as antigas) contacta com outras pessoas com experiências semelhantes sabe que não está sozinho e isso, muito mais do que os noticiários, determina o seu voto.

Uma das perguntas que os jornalistas fizeram a si próprios, aqui e no EUA, perante o choque da vitória de Donald Trump, é como não o conseguiram prever. O choque não é totalmente honesto. Foram muitos os jornalistas que, não o tendo propriamente previsto, puseram essa possibilidade. Até porque, ao contrário do que se diz, não era preciso andar com uma lanterna à procura de apoiantes de Donald Trump. Na realidade, os apoiantes de Trump eram mais visíveis do que os de Clinton. Mesmo no dia das eleições, os jornalistas da CNN, numa maratona de diretos, entrevistaram, nas filas para votar, mais apoiantes de Trump do que de Clinton. A história do voto escondido é uma treta.

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