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Na melhor das hipóteses, um Trump adiado

As pessoas estão com medo e sentem-se fortes quando alguém que quer se presidente lhes diz, com tanta segurança, que as vai proteger do mundo. São estúpidas? Nem mais nem menos do que sempre foram. Trump é um demagogo? Não é o primeiro nem será o último. O que temos de saber é porque resulta agora o que não resultava antes. No primeiro mundo, os ganhos da globalização concentraram-se em poucos deixando uma vasta maioria de fora. As pessoas não têm medo da globalização porque temem o desconhecido. Têm medo porque estão a ser atiradas para o mar sem boias. A escolha é clara: ou mais proteção social e menos desigualdade ou novas formas de fascismo. A quem se limita a dizer que não se pode travar o vento com as mãos a história pregará a mesma partida que pregou muitas vezes: recordará que o ser humano muda, por vezes de forma trágica, o rumo da história. Donald Trump alimenta-se do caos. A única forma eficaz de o combater é começar a dar ordem ao caos. Levar a sério os sentimentos populares para lhes dar respostas sólidas. Infelizmente, foi Hillary que ganhou as primárias democratas. Se ela vencer, e espero que vença, adia-se a catástrofe. Mas temo que daqui a cinco ou dez anos o cenário seja ainda mais perigoso

Diz-se que o voto em Trump é dos que ficaram para trás no processo de globalização. Apesar da simplificação, parece-me genericamente certo. Só me espanto quando me apercebo que, em vez de se estar a identificar um problema, se está a tentar diminuir aqueles que votam no candidato republicano. Como quem diz que é um voto de falhados em vez de dizer que é um voto dos excluídos. Quando as pessoas são prejudicadas por determinadas opções tendem a votar nos que reconhecem esse prejuízo. Quando esse grupo se torna muito numeroso passa a determinar uma eleição. E é aí que os poderes políticos reagem ao problema. Esta é a beleza da democracia e a razão para a sua capacidade de regeneração.

Aos que estão preocupados com os fenómenos populistas de recorte fascizante que crescem nos EUA e na Europa restam duas possibilidades: maldizer os que não estão disponíveis para sacrificar a única vida que têm em nome de amanhãs que um dia talvez cantem e manifestam essa sua indisponibilidade através do voto; ou tratar de garantir que menos gente fica para trás neste processo de globalização, reforçando proteções sociais, em vez de as reduzir, contrariando a competição por via da redução de direitos laborais e políticos e fazendo escolhas que mantenham vivas as economias locais e protejam o ambiente. Se, nos acordos comerciais que têm sido assinados, conseguem proteger as corporações de qualquer ameaça (até da justiça dos países), seguramente será possível proteger aqueles a quem o poder político devia servir.

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