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Na república dos doutores

Em Portugal, o “dr.” não é um título académico. É uma distinção social conquistada. Uma evidência para quem não precisa dela, uma expectativa de ascensão cada vez mais frustrada para quem a procura. Esta obsessão pelo “dr.” não se sente apenas no debate político. É visível no quotidiano. As pessoas exigem ser tratadas pelo título, fazem questão de tratar pelo título. Não é porque deem muita importância à academia. O desinvestimento em investigação e ciência tem merecido um olímpico desprezo no debate mediático e político. Não é o conhecimento académico que interessa, é o estatuto. E a importância que é dada a esse estatuto é um dos mais eloquentes símbolos de uma sociedade resistente ao espírito igualitário da democracia. Num país desigual, a monarquia foi substituída por uma República de Doutores. No dia em que o ensino superior for de acesso geral e morrerem as ilusões quanto à sua função social, não ter um curso superior será visto como uma opção natural. Talvez então desapareça esta obsessão provinciana pelos títulos. Até lá, podíamos aproveitar uma proposta antiga de Paulo Rangel e dar um passo simbólico para a modernidade: acabar, na linguagem do Estado e nos documentos oficiais, com a utilização do título académico. Para determinadas funções são exigidas determinadas habilitações. Fora isso, somos todos cidadãos

A futilidade que tem dominado o debate político bateu no fundo: chegámos à licenciatura do chefe de gabinete do secretário de Estado do Desporto e Juventude – o motorista não espera pela demora –, com direito a exigências de demissão do ministro da Educação por parte do CDS. O visado pela notícia diz que se tratou de um lapso dos serviços para o qual ele alertou (e que foi corrigido quando foi reconduzido), mas a comunicação social não se mostrou especialmente interessada.

Já escrevi sobre este tema e nada mais teria para dizer. O acusador matou o assunto, desmentindo a única acusação que o fizera ter alguma relevância política: a de que o ministro sabia do sucedido. Nem assim o CDS veio a terreiro para retirar a sua exigência apressada, como fez, com coragem e rigor, o João Miguel Tavares, ontem, no “Público”. Da história, ficou apenas uma reputação destruída. E nenhum de nós sabe (e poucos parecem querer saber) se Nuno Félix fez realmente alguma coisa de mal. Não estou a dizer que não fez, estou a dizer que não sei.

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  • Explorei aqui todas as possibilidades com toda a informação disponível. O assunto só tem relevância no caso de ser uma fraude e/ou o ministro estar a mentir, sabendo-se que o ex-secretário de Estado disse à TSF que nunca lhe comunicara o caso. Pedir a demissão do ministro com base na informação disponível é invulgarmente leviano. Ainda mais quando esse pedido vem de quem, durante meses, sustentou um ministro (não o chefe de gabinete de um secretário de Estado de um ministro) que comprovadamente tinha participado numa fraude em relação às suas próprias habilitações académicas. Apesar de ser inexperiente e independente, Tiago Brandão Rodrigues é dos poucos que está a afrontar interesses. Afrontou os colégios privados e o seu direito adquirido à mesada pública. Está agora a afrontar a Porto Editora e a Leya, com o seu muitíssimo lucrativo duopólio dos manuais escolares, que rapa o fundo dos orçamentos familiares e do Estado. É um ministro a abater e já houve várias tentativas mal sucedidas de lhe sujar o nome (o caso da bolsa, por exemplo). Se este episódio, que por enquanto parece um pouco esdrúxulo e desinteressante, resultasse num destino menos feliz para o ministro esperar-se-ia, da parte de Costa, uma afirmação clara: as justas guerras que comprou e que o puseram na mira de quase todos os interesses são para continuar, seja quem for o ministro