Siga-nos

Perfil

Expresso

Porque não te calas, Wolfgang?

Os problemas da Europa ultrapassam em muito o governo alemão. Resultam de quase duas décadas perdidas com uma moeda disfuncional, que para além de promover a divergência económica e social entre Estados, consome todos os recursos políticos. Resulta de um défice democrático que está a chegar a um ponto de não retorno. Resulta da incapacidade de reagir rapidamente a uma crise financeira que levou a um crescente afastamento entre as expectativas dos povos do norte e do sul em relação à União. Estou até convencido que o governo de Angela Merkel é o menos brutal que a Alemanha poderia hoje produzir. Representando de forma caricatural quase tudo o que está errado na União, Schaeuble acaba por funcionar como bode expiatório para todas as nossas frustrações. E a história europeia e da Alemanha ajuda a este papel. Em vez de batermos na abstrata União, temos o ministro das finanças alemão. Mas é indesmentível que o seu comportamento de rufia, o seu desrespeito pela soberania dos outros Estados e a sua arrogância quase xenófoba tornam insuportável o ambiente político desta União. De cada vez que abre a boca, para o elogio condescendente ou a crítica deselegante, amesquinha a dignidade patriótica de outras nação. Cada palavra sua é um prego no caixão do projeto europeu. Está na altura de alguém gritar, do fundo da sala: “Porque não te calas, Wolfgang?”

Wolfgang Schaeuble voltou ao bullying e disse que Portugal estava a ir muito bem no governo anterior até, depois das eleições, o novo governo ter deixado caro que não ia respeitar o que tinha sido acordado. Não é grande o amor à verdade do ministro das finanças alemão, e por isso inventa duas coisas, uma de avaliação subjetiva outro no plano dos factos indesmentíveis.

A primeira é que tudo estava a correr bem antes, coisa que os números desmentem. Ou não foram as ameaças de sanções a Portugal referentes aos resultados de 2015, no tempo em que tudo estava a correr bem? Bem sei que na cabeça de Schaeuble as sanções serviam para castigar um governo que não é do seu agrado e qualquer desculpa serviria. Se fossem para punir quem não cumpre o governo alemão teria sido castigado nos últimos cinco anos por causa dos seus excedentes comerciais, cuja ausência de efeitos negativos para os alemães estamos todos a financiar. Mas a verdade é que se as coisas tivessem realmente corrido bem, naquilo que hoje se considera correr bem (o que não qualquer indicador social, como é evidente), nem sequer havia espaço para falar de sanções.

Para continuar a ler o artigo, clique AQUI
(acesso gratuito: basta usar o código que está na capa da revista E do Expresso. pode usar a app do Expresso - iOS e android - para fotografar o código e o acesso será logo concedido)