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CGD: Cansado de tanta espuma

As ações do BPI e a reforma acumulada são assuntos que António Costa tem de resolver, explicando a António Domingues que está a abusar da nossa confiança. E não venha o gabinete de Centeno dizer, a propósito da ausência da declaração de rendimentos, que a CGD é “como qualquer outro banco” e que por isso Domingues não é como qualquer outro gestor público. Porque se a CGD fosse como outro banco teria de ser privada. Mas a pergunta que se tem de fazer ao PSD, que apresenta um novo pacote legislativo sobre gestores, é a que já se devia ter feito ao PS, quando a mudou a lei para acomodar Domingues: porque se continua a produzir legislação para tratar de casos específicos ou criar embaraços? Façam um debate honesto e legislem para a legislatura seguinte. Querem uma carreira própria, com uma lógica de serviço público que não concorre com gestores privados e onde todos os cordões sanitários e períodos de nojo fazem sentido? Ou querem uma concorrência com as empresas onde essas regras pura e simplesmente não funcionam? Querem pagar a quem vem do privado e com ele têm de concorrer nas condições que oferecem? Ou assumem que servir o Estado não é o mesmo que servir acionistas e, assim sendo, os perfis têm de ser diferentes? Feita esta grande escolha, debatam as soluções, os limites, sem ser para agora. Sem ser como reação a umas frases de Marques Mendes, um homem que está há décadas na política e nunca teve uma ideia política, daquelas com substância. Façam política, bolas

Desde 2011, para não ir antes disso, que Portugal vive o pior período da sua democracia. Uma crise económica prolongada que, nos limites impostos pelo euro, promete continuar por muito tempo. Uma crise sem precedentes da nossa soberania. Um esgotamento do regime político e uma angústia popular que, na realidade, não é exclusivamente nacional.

Este devia ser o momento da política. Para falarmos de segurança social, da Escola Pública, da sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde, de uma estratégia económica que ajude Portugal a voltar a ter um sistema produtivo, do nosso papel nesta Europa. E dentro de cada um destes temas as alternativas para políticas sectoriais. Estimula-me discutir a Uber e o alojamento local e o que fazer com estes novos fenómenos económicos. Interessa-me debater as pensões mínimas e a separação entre as prestações sociais contributivas e não contributivas. Entusiasma-me discutir a política para o manual escolar. Sinto a necessidade de analisar as escolhas feitas no Orçamento de Estado. Isto é, na realidade, a única coisa que me faz ter interesse pela política e por isso tento dedicar a esmagadora maioria dos meus textos a este tipo de temas. Talvez me interesse por aquilo que já não interessa a ninguém, mas acredito que são estas coisas que motivam aqueles que ainda têm confiança na democracia.

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  • Pelas informações que me dão, e pela qualidade de quem me dá tais informações, não duvido que António Domingues seja um muito bom gestor bancário. Pelo que se ganha na atividade de gestor bancário, não tenho dúvidas de que o seu salário está na mediana. Mas recordo que bancos e banqueiros que também eram considerados muito bons caíram, não pela sua competência técnica, mas pela arrogância de julgarem que as leis e normas não se lhes aplicavam. Ora esta foi a primeira impressão que Domingues deixou. E isso tem de preocupar os contribuintes que lá colocam milhares de milhões de euros

  • Quando Ferreira Leite nomeou Paulo Macedo como diretor-geral das Finanças o Estado ficou a pagar-lhe muito mais do que estava estipulado para aquela função. A reforma que Macedo fez na Autoridade Tributária garantiu milhões de euros de poupança para o Estado. Equilibrar entre os princípios e o pragmatismo dos resultados é uma arte difícil e fundamental na política. O meu problema com António Domingues não é o seu salário. Apesar de ser difícil explicar como exige as mesmas condições que tinha no BPI quando, ao que parece, vai acumular a reforma do BPI com o salário, melhorando substancialmente as suas condições remuneratórias. Não faço ideia se vale o dinheiro que exigiu e o facto de um banco lho ter pago, com os salários absurdos que se praticam numa banca falida e mal gerida, diz-me muito pouco. O que me incomoda é que tenha exigido todas as condições que tinha no BPI. Se faz um paralelo absoluto entre a sua anterior função e a que desempenhará na CGD quer dizer que acha que o seu trabalho é o mesmo. Sendo a Caixa um banco público, quem o dirige está a prestar um serviço público à comunidade, coisa que seguramente não se pode dizer de um gestor de um banco privado. Para o fazer não precisa de receber seis mil euros brutos (pouco mais de três mil líquidos), um salário mais habitual num bancário de topo de um pequeno banco. Mas teria de compreender que o serviço que presta tem uma natureza absolutamente diferente das suas funções anteriores. Entre seis mil e 30 mil há muitos euros. Uma coisa é certa: com este salário, o escrutínio público do trabalho de António Domingues terá de ser implacável. Tem de provar uma competência muitíssimo superior à de todos os gestores públicos. É com eles, e não com os restantes banqueiros, que Domingues terá de se comparar. É com o salário deles, e não com o dos restantes banqueiros, que hoje o comparamos. A fasquia está, portanto, na estratosfera