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Jokerman e o circo

Bob Dylan é um poeta. Um poeta que tem de ser lido com música, para que não fique amputado. Mas um poeta. Não acho que seja, mesmo entre os músicos norte-americanos, o mais interessante. Mas não me move qualquer tipo de conservadorismo disciplinar, que quer evitar que o mundo da literatura seja conspurcado pela cultura pop. Quando mais contaminação melhor. O que me incomoda no Nobel da literatura é outra coisa. É que já seja pouco mais do que um “statement”, o que é relativamente natural numa instituição conservadora, marcada mais por lóbis do que por outra coisa, mas que quer, para garantir a sua influência, mostrar-se “moderninha”. Em vinte anos a Academia apenas reconheceu três poetas. Em toda a sua história não ligou um caracol à poesia. Quer, com esta prémio, afirmar que Bob Dylan é um dos melhores poetas vivos? Apesar destes rankings valerem pouco, não cabe na cabeça de ninguém. A relevância do Nobel é mais comercial do que cultural. Só por isso, acabei por gostar do Nobel a Dylan, que nem se deu ao trabalho de atender o telefone à Academia. Confirma-se que o homem está ocupado a fazer coisas mais importantes

Não quero que me interpretem mal. Adoro Bob Dylan. Mais do que isso: considero-o, como considero qualquer letrista, um poeta. Um poeta que ter de ser lido com música, para que não fique amputado. Não acho que seja, mesmo entre os músicos norte-americanos, o mais interessante. Mas esse é um debate que não quero trazer para aqui. Seja como for, não me move qualquer tipo de conservadorismo disciplinar, que quer evitar que o mundo da literatura seja conspurcado pela cultura pop. Quando mais contaminação melhor. Até concordo com um amigo que me dizia que, na realidade, o prémio a Dylan insinua alguma condescendência. O que me incomoda no último Nobel da literatura é outra coisa.

O que me incomoda é que o Nobel já seja pouco mais do que um “statement”. Um “statement” político, muitas vezes. Um “statement” cultural, outras. Isto é relativamente natural numa instituição conservadora, marcada mais por lóbis do que por outra coisa, mas que quer, para garantir a sua influência, mostrar-se “moderninha”. No meio, a literatura propriamente dita acaba por estar em segundo plano. Isso já se sentiu no ano passado, com o Nobel a ser dado à jornalista Svetlana Alexijevich, pelos testemunhos que recolheu em Chernobil. O excelente jornalismo até pode ser literatura. Naquele caso, apesar de ser excelente, não vejo como pode entrar em tal categoria: tratam-se de testemunhos recolhidos. Mas concedo.

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