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Libertar Mossul sem repetir o Iraque

Para perceber as contradições no terreno, basta pensar que há um acordo que para que seja o exército iraquiano, maioritariamente xiita, a tomar a cidade. Isto apesar dos peshmerga serem o melhor ativo nesta ofensiva. Para além de serem militarmente mais eficazes, os curdos têm uma vantagem sobre o xiitas: não assustam os sunitas. Uma das razões pelas quais a população de Mossul tem medo de fugir da cidade é por temer ser morta pelo exército iraquiano que a vai libertar. Compreende-se que o poder xiita não queira que restem dúvidas sobre de quem terá o poder na cidade. Mas, no dia seguinte, não sabemos como serão tratados os sunitas – que os xiitas associam ao terror do Daesh. Tudo pode voltar rapidamente ao caos que fez nascer aquele grupo. Liderados por um grupo de voluntaristas, corruptos e irresponsáveis, os EUA fizeram o Iraque transitar de uma tenebrosa ditadura para um não menos tenebroso (mas mais imprevisível) caos. Ao fazê-lo, num país multirreligioso e multinacional, com conflitos latentes que iam muito para lá das suas fronteiras, espalharam estilhaços por toda a região. Estilhaços que hoje nos chegam em atentados terroristas e levas de refugiados. A ocupação de Mossul é, pelas especificidades daquela cidade, uma reprodução de todos os riscos que vivemos até agora. Não chega libertar Mossul. É preciso não deixar que ali se repitam todos os erros que se cometeram no Iraque

O cerco a Mossul, segunda maior cidade do Iraque e último reduto do Daesh no País, aperta e é mais do que certo que durará semanas. Esperam-se brutais as repercussões humanitárias. Mas a tomada de Mossul é o golpe fundamental para cortar a cabeça do Daesh no Iraque. A sucessivas derrotas que têm sido infligidas ao grupo extremista, no campo de batalha, explicam, aliás, muitos dos atos desesperados que o grupo reivindica na Europa e nos Estados Unidos. Quando mais fracos estiveram mais insensatos e fanfarrões serão.

As vitórias no terreno têm um ator principal: não são nem os EUA nem o exército iraquiano (apesar deste ter o maior número de homens no terreno). São os peshmerga, exército curdo. Isto levaria a um interessante debate sobre as narrativas dominantes em relação ao Médio Oriente. O povo curdo só teve, durante décadas, um aliado ocidental: a mesma esquerda que hoje é acusada de simpatia pelos radicais religiosos. Os mesmos que, em nome de valores como a autodeterminação dos povos e o combate a tentações imperialistas, sempre defenderam, com absoluta indiferença geral, o direito dos curdos a terem o seu próprio estado. Como o mundo dá muitas voltas, os curdos são hoje a tábua de salvação do “mundo livre” que sempre os ignorou. E, em algumas partes da Síria, os seus mais ativos combatentes até são o que sobra de uma esquerda laica que não aceita nem a ditadura de Assad nem o fanatismo religioso do Daesh.

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