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Um homem brilhante num pântano

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Guterres, um homem com uma carreira internacional brilhante e com um perfil político e técnico muitíssimo acima da média, foi, até ter redesenhado no estrangeiro a sua imagem aos olhos dos portugueses, a personificação do “pântano”. Esse pântano correspondia, e nós ainda não o sabíamos, ao fim de um ciclo de desenvolvimento nacional e aumento da qualidade de vida que marcara o início da democracia e a primeira década de uma integração europeia convergente. Esse pântano não era só nosso, como o tempo veio a mostrar. Era do mundo ocidental, da Europa em particular e especialmente das suas periferias. Mas a incapacidade de discutir política sem que a fulanização esmague o debate mais abstrato e complexo das ideias leva-nos a atribuir aos traços de carácter e de personalidade dos atores políticos o que são, na realidade, as tendências de momentos históricos. E a ver em homens com muitas qualidades todos os defeitos do nosso tempo. Isto não desculpa as responsabilidades individuais de cada político, que pode sempre ajudar a torcer a história. Mas ajuda a pôr as coisas, as desse e as deste tempo, em perspetiva

Em Portugal, por um hábito de autoflagelação que quase roça a megalomania, temos a ideia de que somos dominados por uma trágica elite política. É verdade que, por razões históricas, a nossa elite (e não apenas a política) sempre foi de uma atávica mediocridade. Porque somos um país desigual, porque a nossa elite económica é tradicionalmente rentista (do ouro do Brasil aos fundos comunitários, passando pelo condicionalismo industrial). E porque a nossa elite é desprovida de patriotismo, no que se distingue do povo mas não se afasta, se quisermos ser justos, da generalidade das elites económicas das outras nações.

Como o País é pequeno e muito pobre – com poucos leitores de livros e jornais, poucos cinéfilos, com poucos amantes do que seja mais do que mero entretenimento –, também a nossa elite cultural vive em circuito fechado, asfixiada na sua própria pequenez. O que muitas vezes a desligou do seu próprio povo, confundindo o deslumbramento provinciano com o que vem de fora com cosmopolitismo.

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  • O homem que sabia demais

    “António Guterres é o político mais dotado que Portugal viu no pós-25 de Abril. Não é o melhor, nem o mais apaixonante, nem o que mais mudou Portugal. Não é o mais amado nem o mais odiado, não é o mais ideológico nem o mais técnico, não é o mais à esquerda, nem o mais à direita, nem o mais ao centro. Mas...” Ricardo Costa explica e desvenda o homem que representa a maior vitória de sempre da diplomacia portuguesa: António Guterres foi aclamado secretário-geral da ONU