Siga-nos

Perfil

Expresso

No vazio da política, Trump joga em casa

  • 333

Todas as intervenções públicas de Trump sobre as mulheres, os imigrantes, os mexicanos e os latinos não abalaram a sua base de apoio. Em Cleveland pude observar, aliás, que o único incómodo que ali se sentia era com o facto dele não ser suficientemente conservador. E foi isso, e não o desrespeito pelas mulheres, que provocou tanta fúria com as gravações agora reveladas. O problema não é Trump ser machista, é ser casado e meter-se com mulheres casadas. Mais uma vez, o puritanismo é mais forte do que a política. E o debate desta semana mostra bem como a política se esvazia a ela própria. Falou-se das gabarolices de Trump e dos escândalos que abalaram o casal Clinton. Até se falou de casos mais relevantes para um político: dos impostos do candidato republicano e dos e-mails da candidata democrata. Mas só ao fim de meia hora na lama é que se começou a debater seguros de saúde, propostas fiscais e política externa. Todos se queixam de tudo o que representa Donald Trump. Não reparam que ele não é mais do que a versão caricatural de tudo aquilo em que se transformou o debate político: escândalos, casos e quase nenhum conteúdo

Muitos se perguntam como foi possível um homem como Donald Trump chegar a candidato sério à presidência da maior potência mundial. Há razões relativamente fáceis de identificar. As mesmas que levam ao crescimento da extrema-direita em vários países europeus. Uma globalização que deixou de fora grande parte da população europeia e norte-americana. Uma crescente desigualdade. A sucessão cada vez mais rápida de crises que marcam o processo de financeirização do capitalismo e que resultam num sentimento agudo de instabilidade e insegurança. A perda de poder dos Estados nacionais, que reforçam a frustração dos cidadãos e a sua descrença na democracia. Podia continuar eternamente aqui, apenas para sublinhar uma ideia: idiota é quem atribui à idiotice dos eleitores este fenómeno.

Mas há um elemento que quero acrescentar a esta lista. Aquilo em que se transformou o debate político, com forte contribuição da comunicação social. Como já todo o planeta sabe, Donald Trump teve, há 12 anos, umaconversa dentro de uma camioneta com o apresentador de televisão Billy Bush. Aí, numa gravação não autorizada, anterior a entrar no programa, Trump gabou-se de ter tentado convencer uma mulher casada a ir para a cama com ele. E usou termos ofensivos. Até ver, as gabarolices de Trump não se transformaram em suspeitas de crime. E, apesar de ser um retrato da sua personalidade, a conversa era privada e sobre assuntos privados.

Para continuar a ler o artigo, clique AQUI
(acesso gratuito: basta usar o código que está na capa da revista E do Expresso. pode usar a app do Expresso - iOS e android - para fotografar o código e o acesso será logo concedido)

  • Obama pede aos republicanos que rejeitem Trump

    Em campanha por Hillary Clinton na Carolina do Norte, o Presidente norte-americano disse que a conversa em que o candidato republicano se vangloria de apalpar mulheres sem consentimento deve ofender “qualquer ser humano decente”

  • “A campanha de Clinton é como o FC Porto a jogar contra a equipa de Trump da terceira divisão”

    A maioria dos analistas previa algumas explosões de bombas mediáticas na sexta-feira, a dois dias do segundo debate entre Hillary Clinton e Donald Trump. Mas ninguém antecipava que, de uma assentada, três revelações distintas viessem definir tão profundamente as 48 horas mais marcantes da corrida deste ano à Casa Branca — e o consequente frente a frente que os candidatos presidenciais tiveram esta madrugada. A um mês da ida às urnas, há quem antecipe que a gravação de 2005 onde Trump se gaba de abusar sexualmente de mulheres porque é uma “estrela” vai cair no esquecimento até lá, como todas as outras acusações que já surgiram contra o candidato republicano. Apesar disso, há unanimidade entre os especialistas consultados pelo Expresso sobre a democrata ter a eleição quase garantida