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Se vende é bom, mesmo que seja esgoto

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Poucas vezes vi tão bem explicada a cultura tabloide como no documentário “Amanda Knox” (disponível na Netflix). O seu melhor autorretrato foi pintado por Nick Pisa, o homem que cobriu o julgamento da jovem norte-americana suspeita do homicídio de uma jovem britânica em Itália para o “Daily Mail”. A “deontologia” do jornalismo tabloide segue a mesma lógica da literatura de cordel ou do capitalismo em geral: a função de cada um na vida é produzir coisas que se vendam. Se o conseguem fazer são competentes. Só que os jornalistas dos tabloides vendem um produto muito especial: a vida das pessoas. São, em sociedades em paz, o que de mais parecido há com mercenários na guerra ou assassinos a soldo. São, e é altura para começarem a ser tratados como tal, criminosos. O facto de José António Saraiva celebrar o choque que causou o seu livro por ter levado a uma “corrida às livrarias” e “novas edições” demonstra como a principal arma concorrencial dos jornalistas dos tabloides é a sua própria amoralidade. Usarem a liberdade de imprensa e de expressão para se protegerem é como um saqueador defender-se com a liberdade de manifestação ou um mafioso agir ao abrigo da liberdade de associação

É muito interessante ler o último artigo de José António Saraiva no “Sol”. Sonso, Saraiva defende que foi sóbrio, não insultou ninguém e apenas repetiu o que lhe contaram. Tinha o dever, escreve acompanhado por violinos, de divulgar o legado de que era depositário. Uma quadrilheira tem muito mais classe quando se atribuiu a si próprio um dever histórico. Mas não é isso que me interessa. Interessa-me outra parte do texto, quando Saraiva entra na fase megalómana que todos já lhe conhecemos. Cita quem fez um paralelo entra a coisa e os ”Os Maias”. A comparação saiu no “Correio da Manhã”, suponho que no seu suplemento literário. Podemos dizer que a obra está para os “Os Maias” como aquele diário está para o “Washington Post”. Saraiva descreve o efeito das críticas que lhe foram feitas: “Claro que tudo isto provocou uma corrida às livrarias. Nalgumas formavam-se filas para comprar o livro. Noutras, onde estava esgotado, havia longas listas de reservas. Todos os dias começaram a imprimir-se novas edições.” É desta, Saraiva, que te sai o Nobel.

O contentamento de Saraiva, reconhecendo que a polémica e o choque acabaram por o favorecer, correspondeu à dúvida que eu próprio tive antes de escrever sobre o assunto: ao criticar estou a publicitar. Mas ao não criticar estou a aceitar com naturalidade o que não é natural, a banalizar o que é inaceitável. É sempre uma escolha difícil. E esta contradição, que faz do que é imoral um bom produto, e do autor da imoralidade um vencedor no mercado, é, na realidade, um problema com que os jornalistas hoje têm de lidar. Aqueles que têm o dever de informar são permanentemente confrontados com a concorrência de quem joga outro jogo: quem vive de vender escândalos, sejam verdadeiros ou falsos, seja informação recolhida legitimamente ou não. Os que vivem do esgoto têm sobre os que cumprem os seus deveres enormes vantagens. E o problema é que, ao contrário de outras atividades, todos são protegidos por um grande chapéu, que é o da liberdade de imprensa. Debaixo desse chapéu cabe muita coisa nobre e muito lixo indefensável.

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  • Ao apresentar um livro que faz revelações não autorizadas e deontologicamente ilegítimas sobre vida privada de figuras públicas Passos Coelho não se limita a associar-se a um ato reprovável. Dá-lhe legitimidade pública. Porque a privacidade de Paulo Portas, Morais Sarmento, Pedro Santana Lopes e outros não vale menos do que a sua, Pedro Passos Coelho legitima a devassa futura da sua própria vida privada. Sem qualquer limite, como acontece no livro de José António Saraiva. O direito à privacidade e à intimidade fazem parte de valores fundamentais da vida em sociedade e em democracia e os atores políticos têm o dever de os proteger. Alguém que sanciona e participa numa violação descarada e abjeta destes valores é indigno de ocupar cargos políticos. Alguém que apresenta um livro onde se revelam pormenores da vida íntima e sexual de aliados e adversários seus não pode ter funções de responsabilidade pública. Passos Coelho tem de recusar o convite que aceitou. Se insistir, estreia uma nova forma de fazer política. E tem de ser responsabilizado por isso

  • Queira ou não queira, José António Saraiva era jornalista. As conversas que revela (ou que inventa) aconteceram na sua vida profissional. Assim, ao escrever este livro, estava sujeito a esse estatuto. Apesar do jornalismo sensacionalista, não me recordo de um jornalista ter violado, de forma tão gritante, tantos pontos do Código Deontológico. Os jornalistas têm carteira profissional. Partindo do princípio que não se trata apenas de um pedaço de plástico, a sua posse tem de corresponder à observância mínima das regras e normas existentes. Não vejo como pode Saraiva manter a sua carteira profissional depois de ter usado dezenas de conversas com figuras públicas para divulgar a sua vida mais íntima sem qualquer justificação atendível pelo Código Deontológico da sua profissão. Talvez por estar reformado, não encontro o seu nome na lista pública da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista. Se era jornalista quando teve estas conversas, as regras mantêm-se intactas. Se não era, como raio pode ter as responsabilidades que teve? Os jornalistas não são quadrilheiras. Os jornalistas não podem, de forma gratuita, devassar a vida privada de outras pessoas, causando-lhes um sofrimento desnecessário, num exercício de voyeurismo cruel. José António Saraiva sabe disto. Imagino que no fim inglório da sua vida profissional, sentiu um irreprimível desejo de voltar à tona. Decidiu fazê-lo espalhando bosta à sua volta. Espero que se afunde com ela (Nota: Escreverei amanhã sobre a participação de Pedro Passos Coelho no lançamento deste livro.)