Siga-nos

Perfil

Expresso

Guterres e a golpada alemã

  • 333

Como muitos esperavam, o caminho de Guterres para a liderança da ONU estava destinado a embater no pior da “realpolitik”. Definiram-se regras, foram agendados debates, fizeram-se votações. Chegado o fim do processo, entra uma nova candidata, que não teve de passar por nada disto. É verdade que isto já aconteceu antes, como bem sabe Boutros Ghali, que teve de ceder o seu lugar a Koffi Annan quando o processo já estava no Conselho de Segurança. Nem a ONU é uma democracia, nem os seus procedimentos são totalmente previsíveis. Estamos no terreno da diplomacia. Mas, desta vez, houve uma promessa de transparência e as provas públicas, debates e avaliações pretendiam melhorar a desgastada imagem das Nações Unidas. O escrutínio, neste tempo de informação global, é outro. E a golpada alemã, que só será bem sucedida se contar com o apoio de americanos e russos, terá efeitos um pouco mais nefastos. Pior do que não ter regras e fingir que se tem e não as cumprir. Mas nada está perdido para Guterres: se estivesse, Georgieva não seria, em mais uma absurda originalidade política da Europa, uma comissária com licença sem vencimento

Lembro-me de um dia, num debate televisivo, ter dito que António Guterres tinha sido, até à data, o melhor (ou menos mau) primeiro-ministro português. Apesar de todas as discordâncias que dele tive (o referendo à despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, a entrada de Portugal no euro, a aprovação do chamado “orçamento limiano” e a multiplicação de Parcerias Público-Privado), do papel que considero que teve nas escolhas erradas do País na sua integração europeia e de nunca ter votado nele, a minha afirmação baseava-se nas suas evidentes competências políticas, culturais e técnicas.

Na altura, a gargalhada foi geral. Estava na moda atribuir a Guterres a responsabilidade pelas piores vilanias. Ele era um gastador, ele vivia obcecado pelo diálogo, ele era uma picareta falante que nem sequer sabia o PIB de cor. Mas António Guterres deixou um legado de políticas sociais decentes, a sua obsessão pelo diálogo é uma obsessão democrática que só pode ser vista como um defeito num país demasiado habituado a viver sob um regime autoritário e é, de longe, o primeiro-ministro mais culto e informado que Portugal teve desde o 25 de abril. Apesar disto poder parecer um panegírico, ainda hoje não votaria nele. As discordâncias que tenho em relação às suas convicções e práticas são suficientemente relevantes para tal ser impossível. Ainda assim, continuo a dizer: o melhor (ou o menos mau) dos governantes que tivemos.

Para continuar a ler o artigo, clique AQUI
(acesso gratuito: basta usar o código que está na capa da revista E do Expresso. pode usar a app do Expresso - iOS e android - para fotografar o código e o acesso será logo concedido)