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Síndrome da cabeleireira

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Como é, para quem tem meios, relativamente fácil deslocalizar, de forma legal ou ilegal, património e rendimentos, o argumento da fuga dos ricos tem uma conclusão final: porque precisamos deles, não devem pagar impostos. E a mais banal e tímida política fiscal social-democrata passa a ser tratada como radical. É constrangedor ver como algumas pessoas que se apresentam como sendo de esquerda alinharam no coro do "salvem os ricos". Como se não estivéssemos, em Portugal e no chamado primeiro mundo, a assistir ao movimento oposto de crescente desigualdade. Warren Buffett explicou as crescentes vantagens fiscais para os ricos: “Há uma luta de classes, mas é a minha que a está a fazer e a está a ganhar”. Podemos falar daquilo a que os sociólogos chamam de "ilusão da proximidade" ou, sem ofensa para as ditas, síndrome da cabeleireira: ao lidar quotidianamente com o poder político, a elite mediática julga que também tem poder, ao lidar quotidianamente com o poder económico, julga que também é rica. Serge Halimi chamou-lhes de "novos cães de guarda". Parece-me que, nos tempos que correm, o termo já é demasiado bélico. Com este desfecho, os cães já não precisam de guardar grande coisa. Andam apenas às migalhas

A semana passada assistimos, em jornais, televisões e rádios, a uma “trip” coletiva. A propósito de um imposto (já existente) sobre património, que não causou qualquer polémica quando foi criado, que é banal na sua natureza e sobre o qual ainda pouco ou nenhum pormenor se sabe, escreveram-se os textos mais delirantes. Clarificada a aldrabice de que tal coisa poderia sequer beliscar a classe média, passámos para um debate mais geral. Ele é legítimo, mas a histeria atingiu a psicose, passe o abastardamento das expressões. De repente, e referindo textos de pessoas aparentemente normais, estávamos perante uma revolução que punha em causa as bases do capitalismo e do direito à propriedade privada. A medida mais não era do que um desvio marxista deste governo. Um convite à debandada dos ricos.

Julgando ter-me escapado alguma coisa, falei com gente que percebe da poda e está muito distante das minhas convicções políticas. Confirmei dúvidas sobre a possibilidade de uma dupla tributação (já existe IMI) e discordâncias políticas com este imposto. Mas também confirmei a normalidade deste tipo de imposto e a estupefacção com as leituras apocalípticas que dele foram feitas. Grande parte da confusão resulta, num país pouco habituado a discutir ideias e mais concentrado nos mensageiros, do facto do anúncio ter vindo do BE. E resulta da confrangedora ignorância política e ideológica de alguns comentadores, sempre prontos para emprenhar pelo ouvido e seguir para onde o vento sopra.

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