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Os muros de Trump e de Calais

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Não vou dizer nada que não tenha sido já dito: aqueles que no primeiro mundo estão a ser deixados para trás no processo de globalização estão a reagir. Só que isto é sempre dito com uma pontinha de altivez. Como se esta pobre gente, impreparada para o inevitável, estivesse a tentar travar os ventos da mudança com as mãos. Não. Esta gente é toda a gente que não faz parte da elite. É aquilo a que genericamente chamamos povo. O encerramento das fronteiras aos vizinhos miseráveis e a xenofobia não resultam, como era habitual, da escassez. Resultam da distribuição crescentemente desigual da riqueza no primeiro mundo. E não é sinal do regresso às nações. É o estertor das nações, com os povos desesperados a usar o único poder que lhes sobra – as fronteiras que travam pessoas – contra o único perigo que conseguem travar – os mais pobres do que eles. Os muros de Trump ou de Calais apenas revelam medo. O compreensível medo de quem ficou desprotegido. A solução é mais distribuição, mais igualdade, mais proteção social e mais democracia

E de repente os europeus deixam de poder divertir-se com as idiotices de Donald Trump. Os britânicos não se propõem construir um muro. Vão construí-lo. Não o farão na sua fronteira, que é toda marítima. Farão em terra alheia. Não a construirão entre eles e um país pobre, mas com a França. Para impedir a chegada de imigrantes e refugiados que esperam a sua sorte em Calais. A "Grande Muralha de Calais" vai ter quatro metros de altura e um quilómetro de comprimento ao longo da estrada de acesso ao porto de Calais. A construção, que deverá começar este mês, será totalmente financiada pelo governo britânico e custará cerca de 2,7 milhões de euros.

Há uma parte de tudo isto que se explica pela crise. Uma Europa obcecada em construir uma moeda disfuncional que aprofundou a crise económica e social e desprezou a crise política deu espaço a todos os populismos. O espírito dos que no Reino Unido lideraram a campanha do Brexit (houve quem a defendesse por outras razões) não é o oposto do que hoje anima a União. É o mesmo. Nuns casos, manifesta-se pela imposição da vontade da Alemanha aos demais Estados, noutros na deriva xenófoba e securitária que tomou conta de França, noutras no divórcio britânico com o continente. São manifestações de um mesmo problema e é no problema que nós devemos concentrar.

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