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Resgate, modo de usar

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As condições para haver um segundo resgate nunca deixaram de existir. Existiam quando, por opção política de uma troika que não podia ter em Portugal o seu segundo falhanço depois da Grécia, inventou uma saída limpa. Lembro-me, aliás, de economistas amigos me mostrarem, com um rigor matemático, que ele era inevitável. No contexto de uma moeda única contrária aos nossos interesses económicos, perante a situação de anemia geral da Europa, com limites ao défice que proíbem políticas expansionistas, lidando com uma interminável crise bancária e com o interdito de renegociar a dívida, está garantida a eterna estagnação e o risco de um novo resgate pairará sempre sobre as nossas cabeças. Basta que a Comissão o BCE o desejem. Assim como desejaram a saída limpa sem qualquer razão objetiva para a decretar. Mas nenhum dado económico fundamental aponta mais para um segundo resgate do que apontava quando António Costa tomou posse. Nada disto invalida que Mário Centeno nunca tenha falado de um segundo resgate. O facto de ter passado a ideia que o fez marca a diferença do tempo que vivemos: a narrativa que associa a mudança de ciclo político a um novo resgate precisa desta ansiedade permanente. Sabendo, aliás, que a ansiedade pode ter o efeito da profecia autorrealizada

Mário Centeno não falou de um segundo resgate. A jornalista da CNBC perguntou se ele faria tudo para evitar o segundo resgate (a pergunta poderá ter surgido por causa de um artigo do Financial Times) e ele respondeu que essa era a sua tarefa e enumerou as medidas que o seu governo estaria a levar a cabo. Naquele péssimo hábito de transformar, no título, a pergunta do jornalista na resposta do entrevistado (muito comum em Portugal mas que, como se vê nesta peça, não é exclusivo do jornalismo nacional), a CNBC destacou a frase nunca dita: “Faremos tudo para evitar um segundo resgate”.

A expressão “segundo resgate” nunca saiu da boca do ministro das Finanças. Muitos jornais portugueses limitaram-se a repetir o erro. Uns porque fazem o mesmo que as pessoas comuns fazem no Facebook e partilham as coisas sem as verificar, outros porque acharam que assim o tema tinha mais sumo. É óbvio que Centeno tem, no sensível cargo que ocupa, o dever de saber que as coisas são assim e a única resposta que pode dar a qualquer referência ao segundo resgate é esta: “não vai haver segundo resgate”. E explicar porque é que não vai haver segundo resgate. Diz o mesmo impedindo leituras maldosas. Ele pode garantir que não vai haver segundo resgate? Ninguém pode, porque isso depende de opções políticas externas. Mas “resgate” é uma palavra que puxa ao medo e o medo puxa ao resgate. Por isso nega-se.

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