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Geringonça: quem está no bolso de quem?

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Durante grande parte deste ano o discurso sobre a geringonça baseou-se nesta ideia: o PS estava sob a chantagem do Bloco e do PCP, obrigado a radicalizar-se para se agarrar ao poder. Depois, lentamente, todos se mostraram surpreendidos com a estabilidade. Quando viemos de férias o discurso subitamente inverteu-se. O Bloco de Esquerda e o PCP aceitam tudo. Traíram a esquerda. Quando é que os irresponsáveis do Bloco fazem jus à sua fama? E os extremistas do PCP, quando é que extremam a coisa? Esta permanente ansiedade sobre quem está no bolso de quem tem apenas uma origem: Passos tornou-se para Costa o que Seguro foi para Passos. Perante isto, resta pôr as todas as fichas na divisão da geringonça. Picando, à vez, o PS pela deriva esquerdista e o BE e o PCP pela cedência centrista. Mas todos sabem, a começar pelos próprios, que o primeiro a deixar-se picar tem o seu destino marcado: o castigo eleitoral. E isso é muito mais forte do que centenas de editoriais a pedir mais sectarismo. O povo não quer, como mostram as sondagens, que a geringonça se parta. E enquanto assim for, ela não se vai partir

O acordo à esquerda é frágil. Isso não é novidade para ninguém. É frágil porque pela primeira vez o partido que ficou à frente não teve a maioria do seu lado político. E isso levou a que assumisse o papel de primeiro-ministro o líder de um partido que ficou em segundo lugar. Coisa normal em muitos países mas inédita em Portugal. É frágil porque esta novidade reforçou o carácter parlamentarista do nosso sistema e acabou com uma tradição governamentalista que, à margem da Constituição, se tinha imposto na política nacional. É frágil porque os partidos que suportam o governo não coincidem com os partidos que estão no governo, o que cria uma perigosa assimetria de responsabilidades. É frágil porque o governo está pressionado pelas instituições europeias, que desejam ter, nos países periféricos, políticos dóceis. É frágil porque o PS tem um entendimento diferente do BE e do PCP quanto à forma como se deve relacionar com as imposições europeias. É frágil porque BE e PCP ainda não se pacificaram com a escolha que fizeram e dão demasiadas vezes sinais contraditórios ao eleitorado. É frágil porque o modelo de entendimento é atípico e pouco responsabilizante. É frágil, por fim, porque nas atuais circunstâncias todos os governos são frágeis.

Foi essa fragilidade que levou Paulo Portas, antes de pôr a sua experiência política no mercado, a alcunhar este acordo de “geringonça”. No seu hábito compulsivo de produzir sound bites, Portas fez um favor à esquerda: nomeou o que era impossível de nomear sem sublinhar a sua fragilidade. Não era uma coligação e não era bem um acordo de incidência parlamentar (eram vários). Não havia nada de simples para dizer o que era sem toda a gente perceber o que não era. “Geringonça” era um nome neutro, simpático, que foi adoptado pela própria esquerda.

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