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Ensinar para a desobediência

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A escola nasceu como forma de normalizar e uniformizar os indivíduos. Manteve um estatuto de concentracionário que a assemelha, até aos dias de hoje, a espaços prisionais. A escola democrática, destinada a formar cidadãos livres e conscientes, é recente e foi pouco assimilada. Claro que a disciplina é fundamental. É fundamental para a vida coletiva e para a realização individual. Por isso educamos os nossos filhos e até os ensinamos a obedecer a ordens. Mas a democracia fez nascer movimentos pedagógicos que querem explorar outras qualidades do ser humano. Ensinado as crianças a questionar, a duvidar, a pôr em causa a autoridade. Incluindo a dos pais e a dos professores. De forma organizada e com regras. Associando à autonomia da criança o sentido de responsabilidade (não há nada mais desresponsabilizante do que a obediência que não questiona). Mas recusando sempre a ideia de que a obediência pode ser cega e a autoridade não precisa de se justificar. É dificílimo educar crianças assim. Dão muito mais trabalho. Mas formamos adultos diferentes dos que Stanley Milgram estudou (que nos são apresentados em "Experiment") e Hannah Arendt lamentou. No ambiente que se voltou a viver neste princípio de século é quase impossível dizer isto, mas temos de ensinar os nossos filhos a desobedecer. A educação para a desobediência é o único antídoto contra novos Eichmann

“Experiment”, um filme de Michael Almereyda que não me encheu as medidas, conta a história da experiência de Milgram. A experiência foi desenvolvida, na Universidade de Yale, pelo psicólogo social Stanley Milgram (daí o nome) a partir de 1961. O objetivo da investigação era analisar, em laboratório, os limites da obediência à autoridade.

Cada um dos 40 voluntários recebia 4,5 dólares para participar na investigação. Ele e outro participante (que era apresentado como se fosse voluntário mas que na realidade era um cúmplice de Stanley Milgram) eram postos de em salas diferentes. A um era atribuído o papel de “professor”, a outro o papel de “aluno”. O primeiro lia apenas uma vez, num microfone, para que o segundo pudesse ouvir na outra sala, pares de palavras: “braço forte”, “nuvem branca”, etc. Depois, dizia apenas uma das palavras. O aluno tinha uma grelha à sua frente com várias alternativas de palavras que fizessem o par com aquela, tendo de usar a sua memória para acertar. Carregaria no botão que correspondesse à palavra certa. Se falhasse ou não respondesse o professor teria de carregar num botão à sua frente que provocaria uma descarga elétrica no “aluno”. A inicial seria bastante pequena (15 volts), mas iria aumentando. Até chegar aos 450 volts. Para terem noção do sofrimento que causavam os “professores” experimentavam, antes de iniciar o “jogo”, uma descarga de 45 volts.

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