Siga-nos

Perfil

Expresso

O colonial Schäuble

  • 333

Construída a narrativa dos povos preguiçosos do sul, os políticos do norte ficaram refréns do seu próprio populismo. E passaram a estar impedidos, pelos próprios eleitores, de avançar com políticas que recuperem a coesão e a solidariedade na Europa. Só que no caso de Schauble não estou seguro que se trate apenas de um discurso tático. A forma como usa a ideia de uma sanção como um "incentivo" denuncia um paternalismo que nós, como colonizador, bem conhecemos (porque praticámos). Por causa do Brexit, os ingleses têm sido acusados de xenofobia. Sair da União é visto como um sinal de arrogância. Acontece que as atuais relações de poder nesta União, desiguais e arbitrárias, são marcadas pela arrogância. Querer estar nesta União não é, para os Estados que mandam, uma prova de oposição à xenofobia. Porque esta União pode estar a ganhar traços coloniais. Eles podem ser castigadores, paternalista ou nos dois em simultâneo, com sanções que são um “incentivo”.

Não valerá muito a pena insistir aqui no absurdo que são as sanções para punir o défice de um governo que cumpriu as ordens de quem sanciona e boicotar as condições para que o governo que lhe sucedeu cumpra as previsões positivas que a própria União faz. Não vale a pena recordar que há, para além de Espanha e Portugal, mais Estados que não cumprem o défice – França e Itália – e que não serão sancionados. Não vale a pena insistir que os efeitos do Brexit, a situação da banca alemã e italiana, a crise dos refugiados e o medo causado pelo terrorismo é que deviam estar a ocupar os neurónios dos líderes europeus. Não vale a pena recordar que novos aumentos de impostos e novos cortes nos rendimentos, por causa de mais 0,2% de défice, teriam como único resultado impedir a recuperação económica e tornar menos provável o cumprimento das metas. Os melhores resultados económicos de 2015, face aos anos anteriores, explicam-se em grande parte com o abrandamento da austeridade, por causa das eleições.

Não vale dizer nada disto porque estamos a assistir a um bullying para mostrar mão firme depois do Brexit. Ou pior do que isso: um ato consciente de desestabilização política de um Estado. Ou mais estúpido ainda: uma manobra de diversão para cada um esconder os problemas que tem em casa.

Para continuar a ler o artigo, clique AQUI
(acesso gratuito: basta usar o código que está na capa da revista E do Expresso. pode usar a app do Expresso - iOS e android - para fotografar o código e o acesso será logo concedido)