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Ainda vale a pena invadir-nos?

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Fomos derrotados na vida porque nos deixámos derrotar nas nossas cabeças. Aceitámos que as escolas públicas de qualidade e gratuitas são um luxo; que um serviço nacional de saúde excelente é insustentável; que feriados, horários de 35 horas e férias pagas nos levariam à miséria. Aceitámos, como não se aceitava há muitas gerações, que estávamos condenados a viver pior do que antes. Não foi por não haver dinheiro. Ele anda aí como nunca, só vai para mãos diferentes. Não é a globalização. O Estado Social foi construído na Europa quando o mercado se abria, não quando se fechava. Foi uma escolha que deixámos e continuamos a deixar que façam por nós. No fim do documentário ("E agora invadimos o quê?"), em frente ao que resta do muro de Berlim, Michael Moore recorda quando ele e um amigo, de férias na cidade em 1989, se juntaram aos que começaram a fazer cair aquele crime. E explica o seu otimismo: basta um martelo e um escopro e o muro cai. Claro que as coisas não são assim. A razão porque um martelo e um escopro chegaram foi porque ninguém os impediu. E ninguém os impediu porque o poder que mantinha o muro estava podre. É preciso mais do que vontade. Mas sem ela é impossível. É preciso, antes de tudo, vencer o síndrome de Estocolmo que nos faz proteger os nossos próprios carrascos

No último documentário de Michael Moore, o realizador decide seguir aquilo que acha ser uma tradição recente dos EUA: invadir um país para lhe roubar qualquer coisa. Só que desta vez quer roubar boas ideias. "E agora invadimos o quê?" oferece uma visão um pouco romanceada de vários países europeus (e da Tunísia) e tem o foco nos problemas americanos: mau sistema público de educação, ausência de um verdadeiro serviço nacional de saúde, legislação laboral com poucas garantias, cultura securitária. E, depois de passar duas horas a malhar nos Estados Unidos, é obrigado a um final delico-doce que atribui ao seu país as melhores ideias do mundo. Como Bernie Sanders, Moore apela ao americanismo para resgatar à história do país o Estado Social e a defesa dos direitos cívicos.

Num estilo um pouco manipulador – com tanta manipulação do lado oposto, aguenta-se um pouco desta –, Michael Moore começa por "invadir" Itália. A ideia que quer roubar são as férias pagas e longas, a licença de parto, a licença de casamento, os longos intervalos de almoço, os feriados. É impossível ver esta parte do filme e não sentir a estranheza de ver elogiado o que, nos tempos que correm, costumamos mostrar como defeitos. Sempre que se fala de feriados ou interrupções no trabalho é para exibir um pecado. O moralismo produtivista é o triunfo final na luta de classes queWarren Buffett disse que tinha vencido. Os que a perderam interiorizaram os valores que lhes deviam ser estranhos: trabalhar menos para os outros é mau, ter feriados é mau, ter tempo livre é mau. São eles, com os seus malditos "direitos adquiridos", que travam o crescimento das empresas. E são eles que o dizem, irritados consigo mesmos.

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