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Brexit: Velhos, pobres e maus

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Primeira reação: os velhos não têm o direito de determinar aquilo que vai afectar os jovens. Uma condenação a uma morte cívica antecipada, condizente com outras mortes antecipadas a que as sociedades ocidentais condenam os mais velhos. Segunda reação: os mais pobres são mais ignorantes. A proposta é impor a vontade de uma elite civilizada, informada e sem medo da mudança aos pobres ignorantes que a globalização não acolheu? É que eles nascem, eles votam, eles são cidadãos e têm razões para não estarem satisfeitos. Terceira reação: a culpa foi dos tabloides. Mas eles já existiam nas campanhas que elegeram os líderes que estavam do lado do “remain”. Quarta reação: os eleitores não sabiam o que estavam a fazer e mal viram os resultados arrependeram-se. Um atestado de menoridade à democracia. Quinta reação: esta decisão resulta da natureza isolacionista e desconfiada dos britânicos. Em vez da psicologia coletiva, da antropologia espontânea, da xenofobia para explicar comportamentos de supostos xenófobos, talvez fosse melhor perceber o que mudou na Europa e nas políticas sociais britânicas para que isto acontecesse agora. Todos os argumentos valeram, menos uma análise séria ao que está a acontecer às democracias europeias e à União. Aposte-se na histeria para que nada mude

As reações ao referendo britânico têm revelado uma extraordinária dificuldade em aceitar a democracia quando ela faz mais do que escolher pessoal político dentro de um quadro já determinado. Acalmemos um pouco: os britânicos não subverteram o regime ou elegeram alguém que ponha em risco a democracia e o Estado de Direito. Decidiram abandonar uma União cuja participação resulta de uma opção voluntária de Estados soberanos e independentes. E, para quem se tenha esquecido, há vida inteligente e democrática fora da União. Perguntem à Noruega e à Islândia.

Aquilo a que temos assistido é a uma perturbante criminalização política da opção feita pelos britânicos. E ela diz mais sobre o período de anomalia democrática que se vive na Europa do que sobre os eleitores do Reino Unido. Que, goste-se ou não, deram uma lição de democracia ao resto da Europa. Não é, aliás, a primeira vez que o fazem.

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  • Brexit: um texto para ler hoje ou amanhã, agora ou depois

    Pode acontecer que as urnas ainda estejam abertas quando ler este texto. Pode acontecer que já estejam fechadas ou até que já se saiba os resultados. Mas seja qual for o momento em que este texto for lido, não corremos o risco de desatualização: porque analisa como o Reino Unido e não só debateram os receios e os desejos, as ilusões e as deceções, os êxitos e os fiascos de pertencer à União Europeia. E é uma discussão que não podemos esquecer