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Porque pode

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O Reino Unido não sai porque as doenças da União perturbem mais a sua vida do que a de outros. Pelo contrário, os britânicos já estava com o corpo quase todo de fora. O Reino Unido sai porque pode. E numa União onde só sobra o medo como discurso, cheira-me que é apenas o primeiro. Bruxelas não vai aprender. A Europa vai olhar para os sintomas, fechar fronteiras, enxotar refugiados. Reforçará o egoísmo das nações mais fortes e dos mais fortes nas nações e o medo das nações mais fracas e dos mais fracos nas nações. E continuará a ignorar a razão da sua falência: deixou de querer garantir mais direitos, mais democracia e mais prosperidade. Sem isto, resta um mercado aberto sem proteção social, a receita perfeita para uma catástrofe política. Não foram só os mais velhos que votaram no Brexit. Foram os mais pobres. Foram os mais vulneráveis. Porque será? O medo dos imigrantes é só a reação primária. A saída do Reino Unido terá, para União Europeia, o efeito psicológico da queda do muro. Quebrou-se o tabu. A questão é saber quem liderará este processo. Se continuarmos a deixar que seja a extrema-direita, estamos feitos

Aconteceu. Foi-se julgando que cada ameaço acabava em bem. Foi-se achando que o medo do desconhecido impediria tudo. E se nada chegasse repetia-se o referendo. Bastava colar qualquer tentativa de secessão à extrema-direita xenófoba e o povo civilizado desmobilizava. Não percebiam que com isto apenas legitimavam a extrema-direita xenófoba, transformada em representante da vontade popular.

Na campanha em defesa do "remain" não houve argumentos positivos. Porque qualquer argumento para contrariar o egoísmo seria risível. Seria risível falar de conquistas sociais quando é de Bruxelas que vêm as maiores pressões para reduzir prestações sociais e privatizar serviços públicos. Seria risível falar de prosperidade partilhada quando se assumiu a divergência económica entre Estados como inevitável e se assinou com Cameron um estatuto de exceção. Seria risível falar de direitos humanos depois do acordo celebrado com a Turquia. Seria risível falar de democracia quando Viktor Orbán, que pagou um anúncio no Daily Mail em defesa do “remain”, nos prova que os desvios orçamentas são muito mais relevantes do que desvios ditatoriais.

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  • A thousand natural shocks

    Não se sabe o que é eles saírem e não se sabe o que é nós ficarmos. Nós? Como se definirá agora “europeus”? Se os mercados financeiros tratam de expectativas, os povos tratam-se de esperança; e se Bolsas oscilam pela indefinição, pessoas paralisam com medo. A The Economist pode repetir a manchete da crise de 2008: “Oh Fuck!”. Oh fuck…

  • Cameron achava que tinha a melhor mão e acabou a perder as fichas todas

    A arriscada jogada de poker do primeiro-ministro do Reino Unido, agora demissionário, culminou num resultado que nem ele nem os restantes europeístas antecipavam realmente: a saída da União Europeia. Aparte o descontentamento da população com Bruxelas e com a imigração, é Cameron o verdadeiro responsável pelo terramoto de consequências imprevisíveis para já