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Antes pelo contrário

Brexit (3): Quando sobra o medo

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Os argumentos dos que defendem o Brexit e dos que a ele se opõem foram quase todos egoístas. Porque é tudo o que sobra. Até o ministro das fianças George Osborne ameaçou com aumentos de impostos e cortes orçamentais estratosféricos caso o Brexit vencesse. Qualquer debate sobre a Europa acaba assim: com chantagem, ameaça e medo. O que quer dizer que já não há projeto nenhum. Há apenas um beco sem saída, em que as relações entre os Estados são geridas por via de ameaças de sanções, vistos-prévios, avisos, ralhetes. Houve um dia D para a Europa: foi quando a Alemanha partiu a espinha ao governo acabado de eleger na Grécia. Nesse dia, todos perceberam, incluindo aqueles que estavam nos antípodas do Siryza, o que lhes poderia acontecer. A forma como a Grécia foi enxovalhada e esmagada deixou um amargo geral, mesmo para aqueles que a queriam vergar. Acabou nesse dia, para sempre e sem retorno, a possibilidade de regeneração desta União. Cada um continuou a tratar de si, deixando os gregos à sua mercê. Mas perdeu-se qualquer réstia de ingenuidade “europeísta” que ainda sobrevivesse. Quem critica o proverbial euroceticismo britânico está a fazer número. Hoje, para além dos que querem uma outra União que não pode nascer desta, somos quase todos eurocéticos. Uns têm mais medo do que outros

Foi tenebrosa a campanha em defesa do Brexit? Foi. Porque a esquerda se demitiu da sua função e os moderados não quiseram ser vistos na companhia do UKIP, o discurso ficou para a extrema-direita e concentrou-se na imigração e refugiados. O assassinato da deputada Jo Cox por um racista com passado de perturbações mentais foi o ponto final simbólico e que muito provavelmente determinou o resultado de amanhã.

A esquerda, se quisesse, teria coisas para dizer do lado da saída: não prescindir do Estado democrático nacional, o único que até hoje ofereceu aos trabalhadores e ao povo, de cujo voto depende, conquistas sociais e políticas. A soberania popular e democrática, mais do que a soberania da Nação, é um argumento de esquerda e é um argumento contra esta União.

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  • Sabemos como o nosso Orçamento de Estado depende de vistos prévios de uma instituição não eleita. Como as regras são diferentes para cada Estado. Como burocratas que ninguém elegeu fizeram cair governos eleitos da Grécia e Itália para os substituir por “tecnocratas” mais mansos. Como as imposições vindas da União correspondem um programa ideológico que, apesar de não ter passado pelo crivo eleitoral, se sobrepõe aos programas dos governos. Tudo isto pode parecer normal porque nos habituamos a viver na anormalidade. Mas não é. E está a minar os alicerces das democracias europeias. Não havendo uma verdadeira democracia europeia, não aceito transferências de soberania que enfraqueçam a legitimidade democrática do poder. Muito menos quando esses poderes, por não dependerem do povo, impedem políticas sociais. E como ponho a democracia e a igualdade à frente da Europa, isso faz de mim um antieuropeísta ou, como está em voga dizer-se, um soberanista. Ao abandonarem a defesa da soberania os democratas entregaram essa bandeira à extrema-direita e à direita populista. O que quer dizer que em vez desta posição soberanista se basear na legitimidade democrática do poder, se passa a basear numa identidade nacional e étnica. E é por isso que o debate do Brexit se está a fazer em torno da imigração em vez de se fazer em torno da democracia

  • O projeto europeu é o inverso do que foi: em vez de convergência económica, a divergência; em vez do modelo social europeu, o seu desmantelamento; em vez de solidariedade, ameaças, sanções e ingerência; em vez do reforço da democracia europeia, a arbitrariedade. E, no entanto, a qualificação de “europeísta”, “eurocético” e “antieuropeísta” continua a usar-se como se nada tivesse acontecido. Um conjunto de sondagens recentes mostra que, nos países do norte da Europa (Reino Unido ou Holanda), a direita é mais antieuropeísta do que a esquerda. No sul (Grécia ou Espanha), acontece exatamente o oposto. No eixo central do poder europeu (Alemanha ou França) há quase empate, com a direita a mostrar-se um pouco mais eurocética. Na Escandinávia (Suécia), semelhante, mas com vantagem para a esquerda. Sejam sinal de indisponibilidade para ajudar outros quando a crise também bateu à porta, reação aos efeitos sociais da crise e a essa indisponibilidade ou a defesa de um Estado Social com fortes tradições, os euroceticismos de sentidos opostos resultam do mesmo: os povos perceberam que a Europa que temos, com as regras que tem, apela ao egoísmo. Foram os próprios opositores ao Brexit a deixar claro que o Reino Unido tem direito, como outros, a regras apenas feitas para si, que negociaram para evitar a saída. Até eles perceberam que isto já não é uma casa comum. Os que querem sair são apenas mais coerentes