Siga-nos

Perfil

Expresso

Brexit (2): Soberanista me confesso

  • 333

Sabemos como o nosso Orçamento de Estado depende de vistos prévios de uma instituição não eleita. Como as regras são diferentes para cada Estado. Como burocratas que ninguém elegeu fizeram cair governos eleitos da Grécia e Itália para os substituir por “tecnocratas” mais mansos. Como as imposições vindas da União correspondem um programa ideológico que, apesar de não ter passado pelo crivo eleitoral, se sobrepõe aos programas dos governos. Tudo isto pode parecer normal porque nos habituamos a viver na anormalidade. Mas não é. E está a minar os alicerces das democracias europeias. Não havendo uma verdadeira democracia europeia, não aceito transferências de soberania que enfraqueçam a legitimidade democrática do poder. Muito menos quando esses poderes, por não dependerem do povo, impedem políticas sociais. E como ponho a democracia e a igualdade à frente da Europa, isso faz de mim um antieuropeísta ou, como está em voga dizer-se, um soberanista. Ao abandonarem a defesa da soberania os democratas entregaram essa bandeira à extrema-direita e à direita populista. O que quer dizer que em vez desta posição soberanista se basear na legitimidade democrática do poder, se passa a basear numa identidade nacional e étnica. E é por isso que o debate do Brexit se está a fazer em torno da imigração em vez de se fazer em torno da democracia

Sempre que alguém sublinha de forma consequente a aberração política em que se transformou a União Europeia, logo surge o anátema do nacionalismo e da extrema-direita. Como se uma posição passasse a estar errada porque, por razões diversas, é partilhada por gente pouco recomendável. Seria o mesmo que eu colar os defensores do "remain" a Viktor Orbán por o tiranete húngaro ter pago uma página de publicidade no Daily Mail contra o Brexit. Este é o tipo de artifício argumentativo que torna o debate político inútil, porque lhe retira todo o conteúdo para o transformar numa guerra entre “eles” e “nós”, apagando as razões deles e as nossas para que ninguém se tenha de dar ao trabalho de pensar.

Esta postura atingiu o Nirvana quando, perante o assassinato de Jo Cox, houve quem tivesse o desplante de colar qualquer pessoa que compreendesse o Brexit a este crime. Tirando a sua posição sobre este tema, a deputada trabalhista tem muito mais em comum com a pouca esquerda que sobreviveram à pressão clubística e apoia o Brexit do que com David Cameron. E David Cameron é, nas suas posições públicas sobre os refugiados e outros temas, mais próximo das principais figuras da campanha pelo Brexit do que de Jo Cox. A divisão entre quem defende a saída do Reino Unido da UE e quem se opõem a ela apenas se faz em torno desta decisão concreta. Não diz mais nada sobre uns e sobre outros, até porque uns e outros têm motivações diferentes entre si. Este tipo de exercício de demonização por associação já foi experimentado no referendo francês ao tratado constitucional. Quem estivesse contra o tratado estava por Le Pen. Hoje, é difícil encontrar um democrata que não concorde com a recusa daquele tratado. E no fim é isso que conta.

Para continuar a ler o artigo, clique AQUI
(acesso gratuito: basta usar o código que está na capa da revista E do Expresso. pode usar a app do Expresso - iOS e android - para fotografar o código e o acesso será logo concedido)

  • O projeto europeu é o inverso do que foi: em vez de convergência económica, a divergência; em vez do modelo social europeu, o seu desmantelamento; em vez de solidariedade, ameaças, sanções e ingerência; em vez do reforço da democracia europeia, a arbitrariedade. E, no entanto, a qualificação de “europeísta”, “eurocético” e “antieuropeísta” continua a usar-se como se nada tivesse acontecido. Um conjunto de sondagens recentes mostra que, nos países do norte da Europa (Reino Unido ou Holanda), a direita é mais antieuropeísta do que a esquerda. No sul (Grécia ou Espanha), acontece exatamente o oposto. No eixo central do poder europeu (Alemanha ou França) há quase empate, com a direita a mostrar-se um pouco mais eurocética. Na Escandinávia (Suécia), semelhante, mas com vantagem para a esquerda. Sejam sinal de indisponibilidade para ajudar outros quando a crise também bateu à porta, reação aos efeitos sociais da crise e a essa indisponibilidade ou a defesa de um Estado Social com fortes tradições, os euroceticismos de sentidos opostos resultam do mesmo: os povos perceberam que a Europa que temos, com as regras que tem, apela ao egoísmo. Foram os próprios opositores ao Brexit a deixar claro que o Reino Unido tem direito, como outros, a regras apenas feitas para si, que negociaram para evitar a saída. Até eles perceberam que isto já não é uma casa comum. Os que querem sair são apenas mais coerentes