Siga-nos

Perfil

Expresso

Eu fui Charlie e não sou gay?

  • 333

Se na morte dos cartoonistas do Charlie Hebdo esteve em causa a liberdade de expressão seria normal que na matança do Pulse estivesse em causa a homofobia. Mas, estranhamente, o carácter homofóbico do ataque quase foi expulso do debate político norte-americano. É um pormenor, um facto que não mereceu grande reflexão política. O ódio de Omar Mateen aos homossexuais foi antes substituído pelo ódio de Donald Trump aos muçulmanos. Para a direita norte-americana, o problema é a existência de muçulmanos no seu território. Para a esquerda é a facilidade em obter armas. Desta vez, poucos parecem querer dizer que eles somos nós. Porque para isso era preciso que muitos dos que gostam de alardear os “valores ocidentais” vencessem a sua agressiva homofobia. Quando um colunista do The New York Times escreveu que Omar Mateen pode ter dado a vitória a Trump enganou-se. Trump nunca poderiam ter gritado “I’m gay” como gritaria “Je suis Charlie”. Foram os media que tornaram quase irrelevante a motivação deste atentado, permitindo que um homofóbico usasse o sangue dos homossexuais para juntar o seu ódio aos gays ao seu ódio aos muçulmanos. Assim, o ódio está sempre a facturar

Dizia-me, hás uns anos, uma ativista lésbica israelita de Haifa: “O ódio que separa palestinianos e israelitas teve um momento de paz: quando se tentou fazer uma marcha do orgulho gay em Jerusalém. Só uma coisa une os rabis e os mulás em Jerusalém: o ódio aos homossexuais. Todos devem isto à comunidade LGBT: criou um ponto de convergência em entre gente que em tudo o resto se odeia.” A homofobia é o mais poderoso dos ódios. Mais do que o racismo ou do que o preconceito social. Mais do que o ódio religioso ou do que o machismo (apesar de ser seu parente próximo). Porque ele lida com os mais profundos dos nossos medos e as mais inquietantes das nossas inseguranças.

A coisa mais falsa de todas as falsidades que se dizem e escrevem quando se dizem e escrevem quando se desenha o retrato do “ocidente” é a ideia de que, ao contrário de outros, somos maioritariamente tolerantes com a homossexualidade. Não somos. E o muito que conquistámos, depois de décadas de batalhas perdidas e vítimas que sofrem em silêncio, não o conquistámos graças à nossa matriz cristã. Conquistámos contra ela, retirando às igrejas o poder e construindo estados laicos.

Para continuar a ler o artigo, clique AQUI
(acesso gratuito: basta usar o código que está na capa da revista E do Expresso. pode usar a app do Expresso - iOS e android - para fotografar o código e o acesso será logo concedido)

  • Quem era Omar Mateen? E porque decidiu matar?

    O norte-americano de origem afegã foi identificado pelas autoridades como o responsável pelo tiroteio deste domingo na discoteca Pulse em Orlando, na Florida. Foi investigado no passado pelo FBI por “possíveis ligações” a um terrorista islâmico, mas o seu pai garante que o crime não foi “motivado pela religião”