Siga-nos

Perfil

Expresso

Ama o gorila mais que ao teu semelhante

  • 333

O gorila abatido no zoo de Cincinatti tem nome, tem rosto e contabilizei, só em língua portuguesa, mais de 150 notícias sobre ele. Não consegui recolher identificações ou histórias de nenhum dos 880 refugiados que morreram no Mediterrâneo na última semana de maio. Na busca que fiz mereceram menos de 100 notícias em língua portuguesa. Não há incompatibilidade na preocupação com animais e com humanos. E não é por nos preocuparmos cada vez mais com o bem estar dos animais que desprezamos os humanos que nos estão mais distantes. A relação causal é a inversa: à medida que as sociedades modernas deslaçadas e sem sentido de comunidade nos isolam no nosso umbigo, contrariando os nossos instintos gregários, substituímos o objeto da nossa necessidade inata de sentir afecto por seres que nos dão menos trabalho. Esta inversão de valores, que torna a morte de um gorila mais próxima e comovente, e por isso mais apelativa para os media, do que a morte de 880 humanos no Mediterrâneo é um sinal de um processo de autodestruição moral da humanidade. Humanizámos os animais, a quem demos nomes e traços identitários ficcionados que apenas para nós podem fazer qualquer sentido. Tudo o que negamos à massa indistinta de humanos que dá à costa, como cadáveres inomináveis, sem direito a ser mais do que um número

Uma criança de três anos caiu numa jaula de gorilas a céu aberto. Um dos gorilas, de 220 quilos, agarrou a criança e arrastou-a pela água, possivelmente até para a proteger, mas com uma força que a punha em sério risco. Os tratadores do gorila, provavelmente os que melhor o conhecem e mais afecto terão por ele, abateram o animal para impedir o pior. Porque para o ser humano a vida de uma criança da sua espécie vale mais do que a de um animal, mesmo que seja uma espécie ameaçada, mesmo que seja o gorila que todos os dias se trata, mesmo que não tenha culpa do que lhe está a acontecer. Poderá ser discutível se tomaram a melhor opção. Mas há momentos em que não se podem fazer análises cuidadas. Não quando as duas vidas em causa são as de uma criança e de um gorila. Aí, faz-se o que fazem todas as espécies, o que faria o gorila se estivesse em causa uma cria sua.

Como seria de esperar, nasceu um movimento para que se faça justiça, com centenas de milhares de seguidores nas redes sociais, acusando os tratadores que salvaram a vida de uma criança por não terem usado dardos tranquilizantes. Aqueles que noutros tempos seriam considerados heróis são agora transformados em vilões. O procurador do condado de Hamilton, onde fica o zoo, vai abrir uma investigação. E bem. Há falhas de segurança óbvias no Jardim Zoológico e responsabilidades parentais que podem ter de ser esclarecidas.

Para continuar a ler o artigo, clique AQUI
(acesso gratuito: basta usar o código que está na capa da revista E do Expresso. pode usar a app do Expresso - iOS e android - para fotografar o código e o acesso será logo concedido)

  • Há pessoas que conhecem as intenções dos gorilas e gostam de julgar, na praça pública, homens sensatos; há pessoas que não gostam de touradas porque matam os touros, mas não se importam com espetáculos onde pessoas são humilhadas; há pessoas que acham que a caça, a primeira das atividades humanas, deveria ser proibida. Há uma inversão de valores total, feita em manada sempre com o apoio das inestimáveis redes sociais.