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O gosto em ser espelho da caricatura

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João Miguel Tavares sublinhava a incoerência da esquerda (suficientemente genérico para ninguém o poder contraditar) e eu sublinhei a dele, ilustrada por afirmações opostas no espaço de poucos textos. Não me oponho ao patrocínio “de igrejas, sinagogas e templos de Shiva” e por isso mantenho essa posição em relação à mesquita. Apenas exijo coerência e, havendo apoios, que sejam plurais. Não pode haver concessões na laicidade para uma religião e laicidade sem concessões para outra. E que João Miguel Tavares, como todos nós, tem de escolher. Em resposta a esta posição lógica, que exige uma clarificação de princípios, sou acusadode um “jacobinismo australopiteco cuja extinção seria um precioso bem para a humanidade”. O colunista parecia não conhecer vários pormenores deste processo (quem pagava o quê e a função da expropriação) e também parecia não saber que a Câmara já tinha apoiado outras igrejas. Mas, na realidade, o problema de João Miguel Tavares não é nem a laicidade, nem a mesquita da Mouraria, nem a Igreja do Restelo. É só reativo. E esta reatividade leva-o difíceis acrobacias, relativizando ou absolutizando a laicidade, conforme a posição que ele julga ser a da esquerda. Se a esquerda é incoerente ele decide ser incoerente de forma contrária. O risco é acrescido quando se procura debater sempre com uma versão caricatural do oponente. O espelho da caricatura não costuma ser mais interessante do que ela

Este é daqueles textos que se intrinca com outros e em que alguém se pode perder no caminho. Primeiro as apresentações. João Miguel Tavares escreveu um artigo em que se opunha ao apoio dado pela Câmara Municipal da Lisboa à construção de uma mesquita na Mouraria e em que sublinhava, a este propósito, aquilo que ele considerava serem as contradições da esquerda em rela ção à laicidade (ver AQUI). Eu escrevi outro, em que, sem explicitar uma posição sobre este apoio, chamava à atenção para a contradição dos que só se recordam da laicidade quando chegam ao Islão (ver AQUI). Os dois textos podem parecer paralelos na denúncia da incoerência, mas não são. Lá irei. João Miguel Tavares respondeu-me ontem (ver AQUI).

No primeiro texto, o colunista perguntava: “a laicidade não diz respeito apenas ao catolicismo, pois não?” Indignava-se: “acho péssimo que sejam os meus impostos a subsidiar o culto de Alá”. E questionava-se: “É uma situação habitual, e a câmara também patrocina igrejas, sinagogas e templos de Shiva?” E eu respondi-lhe, no meu artigo, que sim, que é uma situação habitual, coisa que evidentemente ele desconhecia. E que ou ele era contra essa situação habitual, e eu respeitava essa laicidade sem concessões, ou aceitavam uma posição mitigada, que, em nome da liberdade religiosa, obriga o Estado a ser pluralista: “ou aceitamos que o Estado pode apoiar algumas atividades religiosas e somos pluralistas nesse apoio ou defendemos a laicidade sem concessões.”

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  • Escrevia João Miguel Tavares, ainda há muito poucas semanas: “para achar que a laicidade do Estado é actualmente um problema é necessário estar imbuído de um espírito mata-frades que mereceria estar preservado em clorofórmio no Museu de História Natural”. Mas quando soube que havia dinheiro público para uma mesquita, lá veio ele, imbuído de um espírito mata-imãs, ao Museu de História Natural para salvar a laicidade em perigo. A coisa não é complicada: ou aceitamos que o Estado pode apoiar atividades religiosas e somos pluralistas nesse apoio ou defendemos a laicidade sem concessões. E aí, acabou-se a Concordata com o Vaticano, os benefícios fiscais para a Igreja, a religião e moral nas escolas públicas, o apoio à construção ou preservação de qualquer templo com dinheiros públicos e a presença de figuras do Estado em atos religiosos e vice-versa. Contaremos com os militantes contra a mesquita para tão difícil agenda? É que, num país onde o Estado despeja rios de dinheiro em atividades e na construção templos da Igreja Católica e esta não paga IMI pelo seu vasto património não é fácil levar a sério quem só se lembra da laicidade do Estado quando o apoio é dirigido a determinada religião