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O pecador moralista

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Schauble está preocupado com o adiamento de sanções a Espanha e a Portugal por défice excessivo. Pensa que isso dará um sinal perigoso sobre o imperioso cumprimento das regras. Os limites para o saldo externo de um país da zona euro estão entre um défice de 4% e um excedente de 6% do PIB. A Alemanha, que não cumpre estas metas desde 2011, subiu o excedente comercial deste ano para cerca de 8,3% do PIB e a Comissão até prevê que chegue aos 8,8%. Em 2013, a Comissão Europeia ordenou que a Alemanha corrigisse este indicador, ameaçando com sanções. Berlim nem se deu ao trabalho de fingir que ia fazer alguma coisa. O défice orçamental depende da economia e esta depende, numa moeda única, da ausência de desequilíbrios insuportáveis entre os estados. Não era suposto o euro ser uma luta de galos, onde apenas um saía vivo da aventura. Se fosse essa a ideia, ninguém com juízo o teria defendido em Portugal, Espanha, Grécia ou até Itália. Estas regras, se fizerem algum sentido, só o fazem em conjunto. Mas a Alemanha quer regras comuns para o que lhe é útil e regras só suas quando as comuns não lhe convêm. Em 2003 não cumpriu as metas do défice e ninguém quis saber. Desde 2011 que não cumpre os limites ao excedente comercial e ninguém quer saber. Mas nem assim se abstém de dar ralhetes aos outros

O adiamento das sanções pelo défice excessivo de 2015 só diminui a ansiedade por dois meses. A pressão portuguesa continua, tendo desta vez uma particularidade rara desde que o governo mudou: está tudo do mesmo lado. O facto das responsabilidades serem do PSD e do CDS e as consequências serem para o PS e partidos que apoiam o governo ajuda a explicar esta súbita unanimidade. Que, no que toca às relações com Bruxelas, deveria ser permanente.

Do centro do poder Europeu, que fica em Berlim, já veio o recado. Em mais um momento em que Wolfgang Schauble se comporta como inquisidor da zona euro, o ministro das finanças alemão mostrou-se preocupado pelo adiamento de sanções a Espanha e a Portugal por défice excessivo. Pensa que isso dará um sinal perigoso sobre o imperioso cumprimento das regras. É interessante que, olhando para os resultados financeiros do plano de austeridade que tão empenhadamente apoiou, o ministro não retire qualquer ilação. Mas neste caso, interessa-me mais o seu discurso moral.

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