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Laico? Só na mesquita

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Escrevia João Miguel Tavares, ainda há muito poucas semanas: “para achar que a laicidade do Estado é actualmente um problema é necessário estar imbuído de um espírito mata-frades que mereceria estar preservado em clorofórmio no Museu de História Natural”. Mas quando soube que havia dinheiro público para uma mesquita, lá veio ele, imbuído de um espírito mata-imãs, ao Museu de História Natural para salvar a laicidade em perigo. A coisa não é complicada: ou aceitamos que o Estado pode apoiar atividades religiosas e somos pluralistas nesse apoio ou defendemos a laicidade sem concessões. E aí, acabou-se a Concordata com o Vaticano, os benefícios fiscais para a Igreja, a religião e moral nas escolas públicas, o apoio à construção ou preservação de qualquer templo com dinheiros públicos e a presença de figuras do Estado em atos religiosos e vice-versa. Contaremos com os militantes contra a mesquita para tão difícil agenda? É que, num país onde o Estado despeja rios de dinheiro em atividades e na construção templos da Igreja Católica e esta não paga IMI pelo seu vasto património não é fácil levar a sério quem só se lembra da laicidade do Estado quando o apoio é dirigido a determinada religião

A construção de uma mesquita no bairro da Mouraria, em Lisboa, está a provocar celeuma. Nem o nome do bairro, que deixa bem claro o património histórico daquela parte da cidade, impediu que um pequeno mas excitado grupo de cidadãos organizasse uma petição em que se fala de "expansionismo do extremismo islâmico" a propósito deste templo.

Primeiro uns pormenores com que não se perde nunca muito tempo: os factos. As expropriações de um proprietário (banais quando há obras numa cidade com pouco espaço disponível) na Mouraria não se estão a fazer por causa da mesquita, mas para a criação de uma praça que ligará a Avenida Almirante de Reis à Rua do Benformoso. Uma obra inserida no longo processo de reabilitação da Mouraria, como sabe quem conhece aquele bairro histórico da cidade. A mesquita apenas está nesta praça, cujo projeto, que está neste momento exposto na Bienal de Veneza, terá financiamento do FEDER. Foi aprovado em 2012, sem qualquer drama ou polémica. A Câmara Municipal de Lisboa é responsável pela execução das demolições, construção das estruturas e revestimentos exteriores dos edifícios, estando o resto da obra a cargo do Centro Islâmico do Bangladesh.

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