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A parte da troika que não interessava

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No mesmíssimo momento em que começava a multiplicar por muito os cortes inicialmente acordados com a troika para a área da educação, Nuno Crato aumentava, logo ao chegar ao governo, os montantes de subsídio às turmas com contratos de associação de 80 mil euros para 85 mil. Só depois recuou para os 80,5. As poupanças adicionais acumuladas com contratos de associação que teriam sido conseguidas, entre 2011 e 2014, se se anulassem as redundâncias de oferta entre a rede pública e os colégios privados com contrato de associação quase seriam suficientes para impedir os cortes que se fizeram em Ação Social Escolar, Educação e Formação de Adultos, Educação Especial e Atividades de Enriquecimento Curricular. Nuno Crato foi mais troikista do que a troika nos cortes que fez nas escolas públicas, deixando várias com obras interrompidas, a cair de podres, sem meios e com a corda na garganta. Foi mais troikista do que a troika a atacar deveres fundamentais do Estado com populações mais excluídas. Mas decidiu ignorar o que estava escrito no memorando sobre as transferências para os colégios privados. O que quer dizer que, ao contrário do que dizia Vítor Gaspar, a questão não era apenas o dinheiro que não havia. Era quem sofria os cortes e para quem o dinheiro sobrava

“Não há dinheiro! Qual das três palavras é que não percebeu?” A frase de Vítor Gaspar ficou famosa. E foi com base nela que o governo fez das mais disparatadas e criminosas das medidas impostas no memorando da troika regra de ouro. “Os nossos compromissos internacionais”, como eram tratadas escolhas políticas internas, justificavam uma política há muito sonhada por alguns sectores ideológicos mais radicais: partir a espinha às funções sociais do Estado, aprofundando o seu processo de privatização.

A democracia é escolha e se ela é anulada do léxico político é a própria democracia que passa a ser uma farsa. Mas sempre que alguém punha em causa a inevitabilidade do que era apresentado ouvia-se a mesma resposta: não há mesmo escolha. O que temos de fazer está escrito no memorando. Não há dinheiro. Qual das três palavras não perceberam?

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  • Conheço a incompetência de Nuno Crato por via da minha experiência na Associação de Pais da Escola Artística António Arroio. Uma escola com tudo para ser excelente, mas sem aulas no fim de setembro, com 53 professores por colocar, sem refeitório há três anos, com um estaleiro parado e onde os alunos são discriminados no acesso ao ensino superior. Tudo resultado de decisões tomadas por Crato em cima do joelho, sem preparação técnica e sem ponderação política. O homem que garantia que iria devolver o rigor às escolas. Talvez não fosse má ideia começar, na exigência de rigor, pela sua própria casa.