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A lei do mercado

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Numa das cenas mais serenamente violentas de “A lei do mercado”, Thierry, um operário de 52 anos desempregado há dois, aprende a falar numa entrevista. Os vários colegas de curso, também eles desempregados, fazem a crítica demolidora: a sua voz, a camisa aberta, a sua postura, os compassos de espera nas suas respostas. Até não restar nada dele que se aproveite. Não é um patrão que o transforma num produto. São os seus companheiros de infortúnio, conhecedores, talvez melhor do que ele, das leis do mercado. A mais crua e brutal das verdades é que nos vergaram. Bastou fazer-nos acreditar que somos mesmo um produto. E que ao o sermos nos valorizamos enquanto pessoas e cidadãos. Sufocaram-nos com a gravata do empreendedorismo, pintaram-nos um sorriso idiota na cara e fizeram-nos acreditar que podíamos ser como eles. Apesar da sua mansidão resignada, quando confrontado com um dilema moral, Thierry acaba, no filme, por descobrir de que lado queria estar. A história nunca acaba. E esta história, que é a mais longa da humanidade, já teve muitos altos e baixos

“A lei de mercado” não nos conta uma história dramática. Nunca força a nota. O filme francês, de Stéphane Brizé, não podia ser mais sóbrio. Thierry (Vincent Lindon, que recebeu com este papel o prémio de melhor ator em Cannes) é um operário banal, um desempregado banal, um segurança de supermercado banal. A única coisa talvez um pouco diferente é ser pai de um jovem deficiente, mas mesmo isso é tratado com uma enorme contenção. E, no entanto, “A lei de mercado” é um murro no estômago.

O murro não vem, como é costume acontecer, de uma realidade desconhecida. Não resulta de qualquer revelação que nos seja feita. Vem de um exercício muitíssimo simples: o de parar e olhar para as nossas vidas. E como elas se traduzem, para a esmagadora maioria das pessoas, se olharmos com atenção, numa humilhação quotidiana.

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