Siga-nos

Perfil

Expresso

O futuro não se trava, muda-se

  • 333

Hoje, nas cidades dos países mais desenvolvidos, anda-se mais de bicicleta do que se andava. Há pessoas a reduzir a utilização de um avanço tecnológico (o carro), recuando, em alguns hábitos, no tempo. Alguém que quer preservar um bem como o meio ambiente só com muito esforço pode ser considerado um conservador. E, no entanto, isso pode querer dizer negar alguns dos avanços tecnológicos ou querer limitar a sua utilização. Da mesma forma, é infantil olhar para tudo que a Internet nos traz com um otimismo pacóvio. A linha entre a utopia e a distopia que este novo mundo nos promete é muitíssimo fina. E a diferença está na nossa capacidade de ver isto mesmo e intervir, sem qualquer receio de ser acusado de estar a tentar travar a história. Foram homens e mulheres que “travaram a história” a impedir o holocausto nuclear. Como estamos a tentar fazer com o ambiente e fizemos sempre ao longo da história, intervimos nos avanços tecnológicos para aproveitar as suas vantagens tentando preservar valores que consideramos importantes. Se não o fizéssemos já não andávamos por cá. O futuro não se trava porque não existe ainda. O futuro muda-se. Só porque se muda é que somos sujeitos da história

Mantenho-me só aparentemente no tema da Uber. Aparentemente, porque o tema tem enormes potencialidades para o debate político. Quer nos problemas que levanta – novas tecnologias, economia de partilha, regulação económica, novas modalidades de trabalho – quer nas reações que provoca. E uma das mais sintomáticas resume-se numa frase: isto é o futuro e não há nada a fazer. A frase é apolítica porque nega a intervenção humana na sua própria história, convidando à resignação. Não se param os ventos da história com as mãos. A própria ideia de que história tem ventos, como se resultasse de uma evolução natural e inelutável, é absurda. Se é verdade que a história tem tendências e ciclos, além deles serem dificilmente verificáveis no momento em que essa história decorre, eles não são, nunca foram, mapas de destinos marcados e inalteráveis. Se fossem, os historiadores teriam poderes mediúnicos. E a afirmação é factualmente errada. A história está cheia de movimentos contraditórios, para trás e para a frente, que se afastam, se cruzam e se confrontam. A história não é um caminho inelutável para o progresso, seja ele entendido como for.

A esta afirmação vem muitas vezes associada uma fé infantil no progresso. Sobretudo no progresso tecnológico. E esta fé, como acontece com todas as fés, recusa a dúvida e cautela. Quem tente travar uma qualquer modernidade tecnológica, ou sequer pôr em causa as suas virtudes ou os alguns efeitos perniciosos, é tratado como alguém que, estando agarrado ao passado, recusa por princípio qualquer mudança social, política ou tecnológica. Porque, pensam, negar o futuro é negar a realidade. Conservadores e cegos. Não sabem os deslumbrados acríticos pelo progresso que são apenas o espelho do conservadorismo atávico. Uns e outros dão ao progresso uma valoração moral independente do seu conteúdo em vez analisar uma nova realidade pelo seu valor intrínseco, tentando compreender os riscos e as vantagens que ela transporta.

Para continuar a ler o artigo, clique AQUI
(acesso gratuito: basta usar o código que está na capa da revista E do Expresso. pode usar a app do Expresso - iOS e android - para fotografar o código e o acesso será logo concedido)