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Quero ser um ditador

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O sistema de rating permite que cada trabalhador viva debaixo de um despotismo sem limites de um patrão caprichoso, omnipresente e omnipotente. Sobrevalorizando as qualidades sociais dos trabalhadores e subvalorizando as suas qualidades técnicas, o sistema de rating promove uma relação servil entre empregado e cliente. Como cliente, eu ficarei seguramente a ganhar. Poderemos viver numa redoma asséptica onde tudo cumpre a função de nos proteger de qualquer contrariedade. Incluindo a contrariedade de ouvir opiniões que nos desagradam, ver pessoas com um aspecto que nos incomoda, sentir coisas que nos contrariam, num exercício quotidiano e quase infantil de autocentramento e comodismo. Não discuto que, do ponto de vista do mercado, esta forma de nos relacionarmos com os serviços que nos são oferecidos é de uma enorme eficácia. A questão é se queremos viver numa sociedade em que todos somos, à vez, ditadores e servos, senhores absolutos do nosso quotidiano, quando não estamos a trabalhar, e trabalhadores amputados de personalidade quando servimos os outros. O problema dos ratings é que essa avaliação, por ser espontânea, não se rege por princípios técnicos, éticos, legais ou de razoabilidade. Enquanto isso servir para coisas pouco relevantes não me tira o sono. O problema é quando o nosso trabalho e a nossa sobrevivência depende disso

Uma motorista da Florida, ligada à plataforma Uber, não permitia, no estrito cumprimento da lei, que os clientes entrassem no seu carro com uma bebida alcoólica. Como conduzia à noite, isso custou-lhe suficientes más avaliações de suficientes clientes para lhe baixar o rating até ter sido desativada, o que quer dizer que perdeu o seu emprego. Teve de pagar 100 dólares para ter aulas de treino de como se relacionar com os clientes, aprovadas pela Uber. Hoje trabalha de dia, o que dá menos dinheiro.

Um motorista muçulmano de Tampa queixa-se que o seu rating está nuns perigosos 4.78. Sendo ele simpático e tendo um bom carro, e comparando-se a outros colegas que conduzem como maníacos e são seguramente menos atenciosos mas têm um rating mais alto, não teve dificuldade em encontrar uma relação entre o facto de ter deixado crescer a barba (que denuncia com maior facilidade a sua religião) e a descida do seu rating. Convicção que foi confirmada por um estudo recente entre ratings e preços praticados dependendo da raça dos anfitriões das casas do Airbnb, por exemplo.

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