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Os colaboradores e as colaboradoras

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O erro do Bloco não é ter consciência da importância das palavras. É pensar que é na lei que essa guerra se faz, usar isto para uma mera prova de vida e não perceber não pode criar uma linguagem de tal forma distante da comum que é apenas usada por uma pequeníssima minoria “esclarecida”, isolando num nicho cultural a causa que quer ganhadora. A linguagem inclusiva não pode ser exclusiva de uns poucos. Quando é, a palavra não tem poder e o debate que se fez é estéril. Mas não me venham dizer que a novilíngua dos nossos tempos é a do “cartão de cidadania”. É a que faz com que por essas empresas fora os “trabalhadores” tenham sido transformados em “colaboradores” ou que um despedimento colectivo seja uma “reestruturação”. Sempre o ponto de vista de quem emprega ou despede, nunca o da maioria dos falantes, que são contratados ou despedidos. As palavras são trincheiras. Sempre foram. E por isso sempre foram policiadas. Não verto uma lágrima pelos que se dizem oprimidos pelo politicamente correto. São eles, grande parte das vezes, os ditadores da palavra, que transformam a opressão num qualquer termo técnico, a precariedade numa coisa agradável e voluntária e a tragédia social num anglicismo anódino. A palavra é sempre uma forma de dominação. Basta seguir as palavras para saber quem domina. Nessa parte do Bloco tem razão

Tirando a partilha de um texto mais ou menos humorístico sobre a proposta do Bloco de Esquerda para a mudança do nome do Cartão do Cidadão para Cartão de Cidadania, estava decidido a não gastar latim com este assunto. Não me interessava nem o tema, nem a proposta, nem o debate que em torno dela ocorreu.

Não é por uma questão de prioridades. Não sou dos que acha que para debater cada tema seja preciso todos os outros estarem resolvidos. Se assim fosse, nada se discutiria até erradicar a fome do mundo e nada interessaria para lá das alterações climáticas, que põem em causa a nossa existência neste planeta. Também não é por achar é irrelevante as palavras que usamos. Se achasse, estaria no ofício errado.

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  • “O esganiçado geringonço”: Henrique Raposo escreve sobre o cartão de cidadão

    Argumentando com a “linguagem sexista” da atual designação do cartão do cidadão, o Bloco de Esquerda sugere que se mude o nome para “cartão da cidadania”, e o Governo admitiu que está disponível para o fazer. Pedimos ao nosso cronista Henrique Raposo que escrevesse sobre o assunto. Depois de falar de Marx, do PREC e da novilíngua de Orwell, Raposo diz que “a esquerda (ou esquerdo, para os puristas) evoluiu para a sua forma pós-moderna, gasosa e linguística” e que vivemos hoje debaixo de um “policiamento constante da linguagem”

  • O cartão do cidadão é mesmo sexista? (e vale a pena tanta discussão?)

    Por esta hora, qualquer pessoa com uma conta no Facebook ou no Twitter sabe que o Bloco de Esquerda quer que o cartão de cidadão passe a chamar-se cartão de cidadania para evitar discriminações de género. Há quem ache que a ideia é “pateta” e que o partido se deve ocupar com problemas maiores, mas os bloquistas respondem que “em democracia não há causas menores”