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E Costa lá vai gerindo o perigo

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Qualquer político que decidisse não se limitar a cumprir ordens de Bruxelas e tentasse ir gerindo a situação dramática do País, com algumas mentiras caridosas mas aceitáveis para os eurocratas e algum jogo de cintura dentro de fronteiras, estaria condenado a fazer acrobacia sem rede. Ou é isto, ou um embate frontal com Bruxelas, ou baixar a cabeça e fazer o que nos mandam. Não sobram outras alternativas. Ainda mais quando se assiste a uma degradação da situação económica mundial e europeia. Felizmente abandonámos a provinciana ingenuidade e o primeiro-ministro faz o que se exige a um político: negoceia, contorna problemas, só procura o confronto onde pode vencer, cede onde é inevitável e explora as ambiguidades de quem o quer contrariar. Isto resolve o impasse em que Portugal, os países periféricos da Europa, o euro e a União se encontram? Claro que não. A hora da verdade ainda não chegou e até pode ser que, por um milagre, nunca chegue. Mas esse é um problema demasiado grande para Costa. Precisa de vários governos europeus a querer caminhar para o mesmo lado. Até lá, Costa vai gerindo o perigo. Porque é assim mesmo que as coisas hoje são. Anunciar o desastre iminente todos os dias, como faz alguma imprensa e a oposição, não desgasta o governo. Transforma cada derrota adiada numa vitória que o fortalece

O cenário macroeconómico em que se baseia o Pacto de Estabilidade está martelado? Claro que está. Mas menos do que é habitual, com metas de crescimento que, sendo improváveis (nunca bateram certo no passado), acertam o passo com a realidade. Mas mesmo com este acerto o governo é muito otimista no défice. Uma parte resulta do bónus que vem do BPP. Outra do facto da desaceleração na redução dos funcionários públicos ser faseada e ainda permitir, e mal, alguma poupança. Mas não chega.

Há quem imagine que isso quer dizer que já há plano B. Pois eu acho que não. E que até haver um confronto sério com Bruxelas o acordo entre os partidos de esquerda será cumprido, sem cortes nos salários e nas pensões, sem aumentos nos impostos diretos e no IVA. O que quer dizer que o governo português está a fazer o mesmo que tantos outros Estados com as metas do défice: a exagerar no otimismo. Quando as metas são irrealistas há duas hipóteses: ou se mudam as metas ou se martela a realidade. E o irrealismo da Comissão Europeia fez com que o martelo seja um instrumento económico e orçamental fundamental. Servissem os números para o governo definir objetivos e a oposição fiscalizar o seu cumprimento e a sinceridade seria um dever. Servindo para dar a Bruxelas razões para sufocar o país com mais austeridade compreende-se a economia com a verdade. A Comissão sabe que é assim por cá e por meia Europa.

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