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A resposta desesperada dos corruptos

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Quando alguém tem vida de milionário com um salário pouco acima dos quatro mil euros é porque foi buscar o dinheiro a outro lado. É por isso que estes gastos de Eduardo Cunha pelo mundo fora constam da investigação e é por isso que foram publicados no El Pais e não num qualquer tabloide. Foi Cunha que pediu, na hora do voto: “Deus tenha misericórdia desta Nação”. Depois de roubar, de levantar falsos testemunhos e de cobiçar as coisas alheias, Cunha conseguiu violar um quarto mandamento: não invocar o nome de Deus em vão. Não é raro serem os piores pecadores a quererem liderar campanhas morais. Podemos discutir o comportamento do PT no poder. Podemos discutir a ida de Lula para o governo. Podemos discutir a estratégia económica e a crise social. Já discuti tudo isto. Mas não podemos transformar este impeachment num ato contra a corrupção. Pelo contrário, ele é um gesto desesperado de corruptos que, perante a fúria popular, decidiram sacrificar alguém que nem sequer é suspeita de tal crime. Eduardo Cunha é um excelente exemplo de como, em momentos de crise, o discurso pouco rigoroso sobre a corrupção pode ser a tábua de salvação dos corruptos

Eduardo Cunha é presidente do Congresso brasileiro. É o primeiro réu do Supremo Tribunal Federal no caso Lava Jato. Como expliquei aqui, depois de muitas recusas, decidiu aceitar que se iniciasse o processo de destituição de Dilma Rousseff. Foi um ato de vingança e de desespero. Vingança porque desde o início tinha deixado claro que PT pagaria bem caro se não lhe desse proteção e não travasse o processo que corria contra ele no Congresso. Desespero porque esse processo acabaria com a sua carreira. Até ver, conseguiu o que queria: já garantiu, depois da votação de domingo, a sua própria impunidade.

Mas é importante conhecer melhor o homem que liderou o a admissão do impeatchment contra uma presidente que pertence ao pequeno grupo de políticos brasileiros que não é suspeito de corrupção e que não é citado no Lava Jato. Aliás, tem a sua ficha mais limpa do que os três possíveis sucessores: o vice Michel Temer, o presidente do Congresso Eduardo Cunha e o presidente do Senado Renan Calheiros. Todos citados no Lava Jato. Todos ativos apoiantes do impeachment. Não estão sozinhos na hipocrisia. Mais de metade dos deputados estão indiciados pelo Ministério Público ou são réus no Supremo. Uma das mais histéricas parlamentares foi Raquel Muniz, de Minas Gerais. Gritou dezenas de vezes “sim, sim, sim, sim” depois de esclarecer o seu voto: "é para dizer que o Brasil tem jeito e o prefeito de Montes Claros mostra isso para todos nós com sua gestão". O perfeito de Montes Claros é o seu marido, que foi detido no dia seguinte, num hotel em Brasília, no âmbito de uma investigação em que se suspeita que o autarca prejudica o funcionamento de hospitais públicos da cidade para favorecer um hospital privado, gerido pela sua família.

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  • O impeachment é dirigido por Eduardo Cunha, presidente do congresso que é réu no Supremo por corrupção, no primeiro caso aberto naquele tribunal no processo Lava Jato. Levará para presidente Michel Temer, vice-presidente citado nos desdobramentos do caso Lava Jato. E foi votado por um congresso onde mais de metade dos deputados estão indiciados pelo Ministério Público ou são réus no Supremo. E agora a coisa passa para as mãos do Senado, cujo presidente Renan Calheiros, terceiro na linha de sucessão, também está a ser investigado no Lava Jato. E tudo para fazer cair uma das poucas políticas brasileiras que, goste-se ou não, não é suspeita de corrupção. A coisa estranha disto tudo é que Dilma, sendo pouco recomendável, parece ser a menos desonesta dos políticos envolvidos em neste processo. E, no entanto, são os corruptos que a julgam. O que aconteceu no Congresso Nacional brasileiro não foi um impeachment, não foi um golpe. Foi uma das mais desenvergonhadas manifestações de cinismo político a que já se assistiu. Usando a expressão do humorista Gregorio Duvivier, da Porta dos Fundos, estão “querer limpar o chão com bosta”