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Limpar o chão com bosta

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O impeachment é dirigido por Eduardo Cunha, presidente do congresso que é réu no Supremo por corrupção, no primeiro caso aberto naquele tribunal no processo Lava Jato. Levará para presidente Michel Temer, vice-presidente citado nos desdobramentos do caso Lava Jato. E foi votado por um congresso onde mais de metade dos deputados estão indiciados pelo Ministério Público ou são réus no Supremo. E agora a coisa passa para as mãos do Senado, cujo presidente Renan Calheiros, terceiro na linha de sucessão, também está a ser investigado no Lava Jato. E tudo para fazer cair uma das poucas políticas brasileiras que, goste-se ou não, não é suspeita de corrupção. A coisa estranha disto tudo é que Dilma, sendo pouco recomendável, parece ser a menos desonesta dos políticos envolvidos em neste processo. E, no entanto, são os corruptos que a julgam. O que aconteceu no Congresso Nacional brasileiro não foi um impeachment, não foi um golpe. Foi uma das mais desenvergonhadas manifestações de cinismo político a que já se assistiu. Usando a expressão do humorista Gregorio Duvivier, da Porta dos Fundos, estão “querer limpar o chão com bosta”

Os deputados foram apresentando as suas razões para votar favoravelmente a admissibilidade do processo de destituição da Presidente Dilma Rousseff. Pela mulher, pelos filhos, pelo estado, pela cidade, por causa da estrada, dos desempregados, dos hospitais, por Deus, pela família quadrangular, pela maçonaria. Todas foram as razões apresentadas, pouquíssimos foram os que referiram a justificação constitucional para o impeachment. Compreende-se. É fraco o argumento e não pegaria entre os brasileiros. Seria como, num chiqueiro, mostrar nojo por um porco não lavar convenientemente os ouvidos.

Antes de tudo, e para que se compreenda o que está em causa, é preciso recordar que o Brasil tem um sistema presidencialista. Ao contrário do que acontece em Portugal, a legitimidade do governante não depende do apoio do parlamento ou da confiança de um Presidente da República sem funções executivas. É o Presidente que governa e tem a legitimidade do voto direto. O que quer dizer que os deputados apenas o podem fazer cair se este tiver cometido um crime de responsabilidade. Por corrupção, por exemplo. Foi o que aconteceu com Collor de Mello.

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