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Expresso

Os dilemas ideológicos de Passos

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Por vezes fico sem saber se Pedro Passos Coelho é um fanático ingénuo ou apenas um habilidoso desonesto. Acabo quase sempre a acreditar na primeira hipótese, talvez com excesso de bondade minha. Criticando o encontro de António Costa com Isabel dos Santos por causa do BPI, Passos disse que é contra o envolvimento de governos “em processos societários que não respeitam ao Estado”. Quando várias vezes escrevi que Passos Coelho era ideologicamente radical houve quem pensasse que o chamava de extremista. Nem por sombras. O que o define como um radical é o facto do postulado ideológico pelo qual se rege ser sempre mais relevante do que qualquer consideração prática. Em sua defesa seria capaz de aceitar o fim banca nacional. A ser sincera esta sua posição, fica-me apenas um problema: como pode alguém que acha que o Estado não deve ter qualquer interferência nos negócios privados concorrer a um congresso partidário com o lema de “social-democracia, sempre”? E é perante esta dúvida que vacilo. Provavelmente Passos não é assim tão fanático e ingénuo. O que dá força a desagradável possibilidade de não ser intelectualmente honesto

Por vezes fico sem saber se Pedro Passos Coelho é um fanático ingénuo ou apenas um habilidoso desonesto. Acabo quase sempre a acreditar na primeira hipótese, talvez com excesso de bondade minha. Na semana passada o ex-primeiro-ministro conseguiu a proeza de ficar totalmente sozinho. Acompanhado por Luis Montenegro, o que é mais ou menos a mesma coisa. Passos criticou António Costa por este se ter encontrado com Isabel dos Santos e assim ter tentado influenciar o rumo da venda de parte do BPI. Passos considera, segundo a sua cartilha ideológica, que um primeiro-ministro não deve interferir em negócios privados.

Lembram-se dos irados em defesa da manutenção dos centros de decisão estratégica em Portugal? Sabemos o que aconteceu quando, no início deste século, se discutiu a espanholização da economia e da banca nacional e um grupo de gestores e empresários rasgou as vestes pela soberania económica do País. No fim, os homens que assinaram um compromisso com Portugal acabaram por vender o que tinham a quem pagava mais: os espanhóis, no caso. Muita gente ficou chocada. Eu não. Não tenho por habito esperar por comboios em paragens de autocarro. Os empresário procuram, a maioria dentro de fronteiras éticas e da lei, defender os seus interesses. Eu também, quando vendo uma casa ou compro um carro, sigo a lei, cumpro as regras e oriento-me por deveres éticos, mas procuro o melhor negócio possível para mim. Por isso mesmo sou um defensor da intervenção do Estado na economia. Ao contrário da ingenuidade ultraliberal (só quando é ingénua é que é sincera), não acredito que a soma de todos os interesses individuais garanta o interesse colectivo. Apenas garante o caos. Se isto é verdade para o trânsito ou para a segurança também o é para economia e para os negócios. E é ao Estado, através de reguladores mas também através da intervenção política que responde perante os cidadãos, que cabe intervir em nome do interesse de todos.

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