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Expresso

Europa também é Islão

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A mesma comissária europeia que se emocionou com os atentados em Bruxelas disse, provocando a ira de muitos, que o Islão é parte da Europa. Os mesmos que queriam ver numa Constituição Europeia a tutela cristã da Europa não podem aceitar esta ideia. E são também eles, com a preciosa ajuda de alguns idiotas úteis, que desenham um risco entre o “nós” e o “eles”, ficando do lado de lá milhões de muçulmanos europeus. Uma guerra contra o Islão é uma guerra civil contra europeus. Como ateu, sei muito bem que nas guerras religiosas acabarei por estar sempre do lado errado. Quem procura uma guerra contra o Islão é, para mim, tão perigoso como o Daesh. Mesmo que use outros meios, busca o mesmo: uma Europa e um mundo onde eu não tenho lugar. Sim, há uma guerra. Fundamentalistas islâmicos e islamofóbicos são o inimigo. Cristãos, judeus, muçulmanos e ateus que defendem a tolerância e a liberdade religiosa são aliados

Quando se debateu a felizmente defunta Constituição Europeia, uma das polémicas foi em torno da referência especial às heranças cristãs do continente. Não vou iniciar aqui um debate histórico. Nem me parece que o rigor histórico fosse na altura a questão. O objetivo seria inscrever num documento oficial uma espécie de tutela cultural sobre a Europa que nos desse a nós, não cristãos (no meu caso, para além de ateu, com origens próximas mais judaicas do que cristãs), o estatuto político de minorias subalternas. “Nós”, os europeus, somos cristãos. O que faz dos outros uma coisa aproximada do “eles”.

Com alguma incompreensão dos sectores laicos, agnósticos e ateus mais agressivos tenho-me batido contra a o discurso anticlerical e antireligioso, sobretudo aquele que carrega em si uma insuportável arrogância positivista, que em tudo se assemelha ao proselitismo religioso. Isso fez-me, por exemplo, ter escrito no Expresso um texto contra declarações públicas ligeiras e ofensivas de José Saramago sobre a Bíblia. Uma das poucas vantagens de ser ateu é não ter de fazer parte de um Igreja. E não há pior igreja do que a dos ateus. Nem sequer tem a beleza poética das restantes.

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