Siga-nos

Perfil

Expresso

Um homem inteligente foi a Havana

  • 333

Tirando alguns corajosos intelectuais, não há uma oposição interna organizada e democrática capaz de conquistar o poder em Cuba. Uma mudança abrupta de regime, para alem de improvável, poderia levar de Miami para Havana gente ainda menos fiável do que Raul Castro. Não levariam na bagagem a democracia e, em vez de um inimigo, os EUA passariam a ter como vizinho uma perigosa incógnita. Foi preciso um presidente que não tem eleições para vencer na Florida e sem qualquer possibilidade de conquistar simpatias nos sectores que impõem este estúpido bloqueio para que as coisas começassem a mudar mais depressa. Nas circunstâncias internas de Cuba e tendo em conta as características da elite política e económica dos exilados, a democracia e a segurança só poderão ser conseguidas por via de uma transição interna. É assim, pelas mãos do ditador irmão do ditador, a conta-gotas e sem ouvir o povo, que as democracias devem nascer? Não. Mas como nos ensinaram a Líbia e a Síria, entre o que devia e o que pode ser há por vezes uma distância considerável. A inteligência da política é tentar chegar ao mesmo lugar de outra forma. Ao visitar Havana Barack Obama fez muito mais pela democracia em Cuba do que 54 anos de bloqueio

Durante décadas os EUA arrastaram um bloqueio politicamente indefensável. Indefensável porque os Estados Unidos apoiaram e continua a apoiar ditaduras bem mais brutais do que a castrista. A guerra fria e a sua própria segurança poderiam justificá-lo. Mas muito maior risco foram os EUA para a segurança de Cuba do que o oposto. As tentativas de assassinato do antigo chefe de Estado cubano e a falhada invasão de 1961 faz com que a paranóia cubana com o seu vizinho gigante não seja disparatada. E não, a preocupação dos EUA nunca foi, nem com Batista, nem com Fidel, nem com Raul, nem com qualquer governo de qualquer país da América Latina, a democracia. Quem use esta retórica ou é tolo ou faz-nos de tolos.

O prolongamento do bloqueio a Cuba só trouxe problemas aos Estados Unidos. Tornou evidente que os EUA não aceitam a soberania dos Estados vizinhos. Na realidade, essa foi uma das funções do bloqueio: deixar bem claro a todos os latino-americanos que um caminho que os afastasse do lado de cá da guerra fria seria pago com pobreza e isolamento. Passado esse período, e quando se multiplicaram os governos de esquerda eleitos (Venezuela, Brasil, Bolívia, Argentina, Equador, Uruguai e por aí adiante), o bloqueio apenas teve dois efeitos simbólicos: manter a solidariedade da esquerda democrática latino-americana com um regime que, ao contrário dos seus, não contava com a legitimidade do voto e reduzir a influência dos EUA juntos dos povos vizinhos, que compreendem bem a ameaça que paira sobre as suas cabeças.

Para continuar a ler o artigo, clique AQUI

  • “Creo en el pueblo cubano.” Obama em Havana

    Todos os cubanos têm direito a “exprimir-se sem medo”, disse Barack Obama num discurso que durou perto de uma hora no mais importante teatro de Havana. Raúl Castro estava lá e ouviu o homólogo americano dizer que os cubanos têm “direito a escolher o seu Governo”

  • Obama. “Embargo a Cuba vai acabar, mas não sei quando”

    No discurso que fez durante o encontro histórico com Raúl Castro em Havana, Barack Obama fez questão de sublinhar que Cuba é soberana, mas disse que os Estados Unidos não deixarão de falar em nome da democracia, da iberdade de expressão e dos direitos humanos. “Temos décadas de diferenças”

  • Raúl Castro: “Deem-me a lista de nomes de presos políticos. Se houver algum, sai em liberdade”

    Raúl Castro nega existência de presos políticos em Cuba - e desafiou o jornalista que lhe fez a pergunta a dar-lhe uma lista dos nomes. Presidente cubano falou ainda dos direitos humanos no país, questionando se há alguma nação no mundo que os cumpra todos - e disse que Cuba cumpre 47 dos 61 direitos humanos. Foi um momento tenso durante a conferência de imprensa conjunta com Obama, em Havana