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As vítimas daqui e de lá

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Não há uma esquerda laxista e multicultural no Estado de Borno, na Nigéria, onde o terrorismo fundamentalista islâmico matou 1427 pessoas. Não há politicamente correto em Sanaa, no Iémen (220 mortos). Não há ódio à democracia paquistanesa em Peshawar (143 mortos). Não há uma invasão de falsos refugiados que não respeitam os valores de quem os recebe no Lago Chade (104 mortos). Não há um choque de civilizações entre ocidente e oriente em Mogadíscio, na Somália (116 mortos). Há grupos terroristas que por de trás do fundamentalismo religioso espalham o medo e assim conquistam poder. Se não olhássemos apenas para o nosso umbigo teríamos percebido que o problema deles não somos apenas nós. E que a causa do problema não são nem os refugiados, nem os imigrantes, nem os jovens dos subúrbios de Paris, nem a tolerância ocidental. O problema é político e ultrapassa os nossos dramas domésticos. A fronteira com os fanáticos não é nem religiosa nem territorial. É entre agressores e vítimas de todas as religiões e em todo o mundo. É do lado das vítimas que estou. Em França, na Bélgica, na Nigéria ou na Síria

Paris, 147 mortos. Bruxelas, 38 mortos. O último ano foi terrível para a Europa. Foi? Estado de Borno, Nigéria, 1427 mortos. Ancara, Turquia, 160 mortos. Mogadíscio, Somália , 116 mortos. Lago Chade, Chade, 104 mortos. Kano, Nigéria, 148 mortos. Sinai, Egito, 260 mortos. Sanaa, Iémen, 220 mortos. Yobe, Nigéria, 203 mortos. Peshawar, Paquistão,143 mortos... Vou parar aqui porque a lista é interminável. Para a conhecer em pormenor aconselho a leitura do excelente e exaustivo trabalho que o Expresso fez ontem, sobre um ano de terrorismo. Não, o que eu estou a querer dizer não é que há quem sofra mais do que nós. Isso seria absurdo quando ainda se choram os mortos. O que estou a dizer é que os disparates que se dizem e se escrevem a propósito deste atentado são mais disparates. É transformar as principais vítimas destes criminosos em suspeitos.

Não há uma esquerda laxista e multicultural na Nigéria. Não há politicamente correto no Iémen. Não há ódio à democracia do Paquistão. Não há uma invasão de falsos refugiados que não respeitam os valores de quem os recebe no Chade. Não há um choque de civilizações entre ocidente e oriente na Somália. Há grupos terroristas que a coberto do fundamentalismo religioso espalham o medo e assim conquistam poder. Se não olhássemos apenas para o nosso umbigo teríamos percebido que o problema deles não somos apenas nós e o nosso modo de vida. E que a causa do problema não são nem os refugiados, nem os imigrantes, nem os jovens dos subúrbios de Paris, nem a tolerância ocidental. O problema é político, é profundo e ultrapassa os nossos dramas domésticos.

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  • Ataques terroristas mataram mais de 10 pessoas por dia em dois anos

    O Expresso recuou até ao verão de 2014, data em que a ameaça do terrorismo global se intensificou, através do surgimento do Daesh (autoproclamado Estado Islâmico). Desde então, uma constelação de grupos levou a cabo 180 ataques em todo o mundo que resultaram em 7000 mortos – mais de 10 pessoas por dia neste período. Esta não é uma lista exaustiva de atentados terroristas, mas a recolha possível dentro dos limites do acesso à informação (atualizado a 29 de junho de 2016 com o ataque ao aeroporto de Atatürk em Istambul)

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    “Pela segunda vez em pouco tempo, as ruas da cidade onde vivo encheram-se de blindados do Exército, polícias, ambulâncias, barulho de helicópteros. Cruzam-se nas ruas as pessoas que há dias andavam mais aliviadas com a prisão de Abdeslam. Mas o que mudou, pelo menos para mim, foi o olhar.” O testemunho na primeira pessoa de Miguel Calado Lopes, ex-editor do Expresso que agora vive em Bruxelas