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Expresso

A nesga do CDS

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Ao mudar a liderança o CDS pode diferenciar-se do PSD sem ter de resolver o debate um pouco bizantino da escolha entre o caminho identitário ou pragmático. Distingue-se do PSD porque o PSD fica a carpir as mágoas do passado, com um líder evidentemente desgastado, enquanto o CDS surge rejuvenescido a falar do futuro. Desse ponto de vista, o corte com Passos através da exigência de demissão de Carlos Costa é taticamente inteligente, porque se faz em torno de uma figura que ninguém quer defender. Só que teria de ser feito pela nova líder, não pelo antigo. São precisas duas coisas para que a nesga do desacerto temporal entre o PSD e o CDS seja aproveitada por Cristas: que não seja Portas a apoderar-se do palco e que Assunção tenha qualquer coisa de novo para dizer. Com exceção do debate sobre a regulação, o discurso de ontem repetiu, com algumas nuances, algumas das principais bandeiras políticas de Passos e Portas

Paulo Portas despede-se sem nunca ter chegado a ser o que ambicionava ser para a direita. Apesar de ter dividido com Cavaco Silva o papel de figura marcante da direita nacional nos últimos 40 anos. Acabou por se ficar sempre pelo número 2 de números 1 medíocres – Barroso e Passos. A grandeza intelectual e carismática de Portas foi sempre contida pela pequenez sociológica e política do CDS, o que o levou a procurar nichos eleitorais – os ex-combatentes, os “lavradores”, os “espoliados”, os antieuropeístas conservadores, os liberais europeístas. E este exercício de transfiguração identitária, para se adaptar às aflições eleitorais do CDS e à indefinição ideológica do PSD, acentuaram, por vezes até ao risível, o seu traço de farsante, que ia representando papéis diferentes que se contradiziam entre si.

Sempre aquém do papel para o qual estaria predestinado, Portas sempre teve dificuldade em abandonar o palco. Achou sempre que era cedo demais. Quando saiu pela primeira vez da liderança, ao fim de três meses estava a bombardear o sucessor eleito Ribeiro e Castro. E passou os dois anos seguintes a fazer tudo para regressar ao poder no partido, que tinha abandonado pelo seu pé. Quando anunciou a sua saída irrevogável do governo de Passos Coelho voltou atrás poucos dias depois. Estes episódios, mais do que a sua longevidade, desgastaram-no. Portas gastou a sua palavra mais do que a sua imagem.

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