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Expresso

Feel the Bern

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A estratégia de Bernie Sanders deveria ser observada com atenção pela esquerda europeia. Não, a esquerda não tem de se reinventar como nos vendeu a terceira via para justificar a sua traição histórica. Não, a esquerda não tem de reconstruir a sua agenda e transformar-se numa coisa “new age” que ignora o essencial da política para tratar de modos de vida. Os combates essenciais são os mesmos: contra a desigualdade, pela redistribuição de rendimento, pelo controlo do poder económico pelo poder político, pela garantia de saúde e educação gratuitas para todos, por regras laborais decentes. O segredo do discurso de Bernie é corresponder a aspirações socialmente maioritário. E, pelo menos nisso, não ceder um milímetro. É provável que as primárias de hoje matem as esperanças de Bernie Sanders. Mas ao romper com a esquerda refém dos interesses financeiros e mesmo assim entrar bem fundo no eleitorado moderado, ao mostrar, como fica evidente nas sondagens, que o socialismo democrático é a melhor arma contra o neofascismo de Donald Trump, Sanders lançou sementes. Outros colherão os frutos. É por aqui que se faz a reconstrução da esquerda. Sem medo de dizer o nos convenceram que era anacrónico. Recuperando, sem vergonha, o projeto do Estado Providência. Não há nada mais antigo do que a selvajaria que nos é proposta

Em 2004, Elizabeth Warren era professora em Harvard e jurista. Dedicava a sua atenção ao endividamento da classe média e às leis que permitem a declaração de bancarrota das famílias. Um debate que por cá devia tomar mais tempo e atenção de políticos e jornalistas. Warren tinha acabado de publicar "The Two-Income Trap: Why Middle-Class Mothers and Fathers Are Going Broke" e merecia atenção dos media. O livro desfazia muitos mitos sobre o endividamento da classe média e como, nas últimas décadas, a perda de rendimento foi substituída pelo crédito. Devemos mais para consumir as mesmas coisas.

Numa entrevista sobre o seu livro a Bill Moyers, na PBS, Elizabeth Warren contava, a propósito de tudo isto, uma história interessante. Como uns anos antes fora chamada pela primeira dama, a senhora Hillary Clinton, para lhe falar sobre esta situação e sobre uma lei que tinha sido aprovada e era, na realidade, um enorme favor às instituições bancárias por tornar muito mais difícil a declaração de bancarrota, obrigando famílias falidas a continuarem a pagar dívidas quando já não tinham o suficiente para o seu sustento. Depois da conversa que as duas tiveram, em que ficou evidente para jurista a enorme inteligência e rapidez de Hillary, a primeira dama foi ganha para a causa. Acabaria por ser ela mesma a convencer o marido e toda a administração a vetar a lei. Mais tarde, na sua autobiografia, Hillary iria reivindicar, com razão, os créditos desta corajosa posição da Casa Branca.

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