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Expresso

O desmantelamento da União, em pequenos passos e a várias velocidades

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David Cameron conseguiu um regime de exceção numa Europa que anda a massacrar os países mais pobres por causa do “respeito por regras que são iguais para todos”. Um discurso que vai sendo repetido pelos tontinhos nacionais. Tirando uns alienados que passeiam pelos corredores das instituições europeias e algumas pessoas com um discurso generoso mas que desistiram de participar nos combates políticos que contam, já ninguém acredita no futuro deste projeto. Estão todos a ver o que ainda conseguem sacar dele. É isso que o Reino Unido está a tentar: sair da União ficando apenas com o que lhe interessa. Poderá sair através desta farsa ou pela vontade popular dos britânicos. A bem da clareza democrática espero que seja a segunda hipótese. Este gesto dos britânicos é apenas mais um momento da desconstrução da União, com passos curtos e a várias velocidades. Ao contrário do que fizemos no caminho inverso, devemos participar, de forma pragmática e construtiva, no fim ordenado deste projeto

Durante décadas imperou a ideia de que a melhor forma de construir a União Europeia seria através de pequenos passos. Com Schengen e o euro esses pequenos passos passaram a ser grandes e apenas para os que os queriam dar, numa Europa construída a várias velocidades. O euro, já o escrevi vezes sem conta, foi o passo fatal. Previsivelmente fatal. Não se cria uma moeda comum, dependente de um mesmo banco central, sem políticas fiscais, orçamentais e até sociais comuns. Uma moeda comum sem instrumentos democráticos comuns passa a ser um perigo real para as democracias. Não se faz uma união cambial sem uma união política. Mas fez-se e os que ficaram de fora do euro suspiram hoje de alívio pela sensata decisão que tomaram. Só que ficaram em carruagens que não estão presas à mesma composição puxada pela locomotiva do euro. Estão, sorte a deles, livres de um comboio que corre a alta velocidade para o abismo.

Preleções morais ao Reino Unido sobre a sangrenta história de uma Europa dividida são, nesta altura, risíveis. Esse projeto generoso, se alguma vez realmente existiu fora da cabeça dos mais voluntaristas, morreu em Maastricht, teve o seu cadáver profano no Tratado de Lisboa e a sua memória é diariamente insultada desde de que começou a crise financeira de 2008. O projeto europeu é hoje uma forma de contornar os mecanismos democráticos e impor uma agenda económica e política não sufragada. É um elemento de crispação, não de paz, de degradação das democracias, não do seu fortalecimento.

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