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Expresso

Eutanásia: recuperar a incerteza da morte

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Como diz a Maria Filomena Molder, filósofa e subscritora do movimento cívico pela morte assistida, não podemos contrariar a incerteza da morte. Mas podemos impedir que o desenvolvimento científico, em vez de nos libertar das dores da vida, nos aprisione nas suas próprias conquistas, transformando-nos em objetos decadentes da sua própria arrogância. Ao dizermos que há um ponto em que queremos mesmo morrer estamos a recuperar a nossa humanidade às conquistas da ciência. Estamos a recuperar a incerteza da morte. Quero morrer, na medida em que isso seja possível, num suspiro sereno. Sem dor. Sei que essa escolha não posso fazer. Mas tenho de poder traçar um limite. Não quero ser prisioneiro de um corpo que me tortura. E se já nada me pode salvar e me resta apenas um sofrimento atroz, quero que alguém me ajude. O direito a morrer com dignidade não é mais do que a consequência lógica do direito a viver com dignidade

Tenho medo de morrer. Mais do que de morrer: tenho medo da espera da morte, do seu cheiro, da sua proximidade. Está dito. É um medo recente e por isso angustiado. Espero envelhecer mais sereno com esta inevitabilidade. Mas, mais do que ter medo de morrer, tenho medo do fim. Da espera lenta, da dor insuportável, da decadência física, psicológica e moral, do horror da dependência, da infelicidade absoluta a encerrar uma vida feliz. Mas a vida e a morte são mesmo assim. Não podemos escolher. Não podemos?

Aquelas que sempre foram as leis da vida e da morte ditavam coisas bem diferentes daquelas com que hoje vivemos (e pelas quais morremos). Nós fintamos a morte através da ciência. Todo os dias cada vez mais. As curas que incessantemente procuramos, a forma como fomos prolongando as nossas vidas, os cuidados paliativos para diminuir a dor do nosso fim, tudo isso fomos nós, não foram “as leis da vida”. Apesar de estar na moda essa coisa “new age” que, no conforto de vidas protegidas por vacinas, hospitais, cuidados médicos, maldiz a modernidade, agradeço cada descoberta científica que me deu, me dará, se tiver alguma sorte, mais uns anos para a única vida que tenho. Homens e mulheres de continentes menos afortunados do que o meu sonham com esta facilidade que, ao que parece, nos começa a enfadar.

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